domingo, 11 de novembro de 2007

Redes e Blogs

Repensando algumas coisas nesse fim de semana completamente misantropo. Acabei não saindo pra canto nenhum e fiquei em casa escrevendo e lendo algumas coisas - deu pra produzir uma mixaria, mas o tempo foi bom pra colocar a cabeça em ordem.

Uma das coisas que vêm me martelando é o quanto eu me exponho blogando e como isso poderia ser bom ou ruim. Meu blog é pouco lido, isso não é uma questão de estar colocando minhas idéias na mesa pra milhares ou muitas milhares de pessoas lerem. Fora ocasionais visitas do Google, acho que tenho uns 2o ou 30 leitores - sendo otimista.

O problema real é outro. Como eu já disse antes, o Savoir-Faire é misteriosamente bem classificado no Google. Digitar meu nome e apertar o botão "Estou com sorte" traz qualquer um diretamente pra cá. Um eventual professor, colega de trabalho, amigo, empregador ou namorada sempre vai ter acesso a tudo o que foi escrito aqui. Basicamente, eu uso esse espaço pra discorrer sobre algumas coisas que eu penso, exercitar uma veia literária porca e, muito de vez em quando, fazer comentários pessoais - e mesmo assim procuro não me expôr tanto.

A diferença entre escrever sobre o que se pensa e escrever o que se pensa é enorme. Desde quando comecei a escrever blogar, em 2002, vi muitos blogs conseguir audiência promovendo um strip-tease da vida pessoal dos autores. Estes praticamente publicavam os próprios diários para todo mundo ler - e não era raro ver posts sendo deletados por conta disso ou os autores fazendo meta-análises como essa e se arrependendo de terem escrito algumas coisas. Hoje, com a introdução do microblogging, é possível enviar mensagens via celular e falar sobre o que estiver fazendo a qualquer hora. Ok, mas quem se interessa por isso? Quem vai ler esse tipo de coisa?

Quando os blogs viraram febre muita gente se perguntava sobre isso também. Ninguém achava que seria útil ler sobre o que outros pensavam ou mesmo acompanhar um "querido diário" eletrônico. Essa previsão de pouco interesse nos blogs se mostrou equivocada e em pouco tempo eles se tornaram a mais difundida forma de publicação pessoal na internet - seu formato foi incorporado a muitos sites.

O que estava por trás disso era uma idéia de publicação rápida e acessível. Enquanto num website você tinha que elaborar o texto e depois se desdobrar na frente de um editor de html, no blog a ferramenta de edição de texto já era incorporada e facilitava muito a vida de quem não queria gastar tempo editando páginas e fazendo uploads. Assim, os blogs foram os grandes responsáveis por democratizar a publicação na internet.

Apesar de seu uso por profissionais e a instituição dos pro-bloggers ter dado um ar de seriedade aos blogs como ferramentas de circulação de informações, eu penso que existe um pontecial nos blogs pessoais que parece pouco explorado. O que vejo hoje é a possibilidade deles como reforço de redes sociais já existentes ou criação de novas redes. Pessoas que se conhecem (de perto ou virtualmente) e se interessam mutuamente pelo pelo conteúdo que produzem, fabricando um novo espaço para o debate do que quer que seja.

Essas redes, de alcance limitado mas potencialmente amplo, não têm porque ganhar uma grande audiência. Seu objetivo primário seria a troca de idéias pura e simplesmente. Como inteligências coletivas, de indivíduos autônomos, elas são fluídas e seus membros podem pertencer simultaneamente a várias delas. Seu poder de intercomunicação perpassa a simples publicação e leitura, inserindo a figura do comentário, da repetição, do questionamento de um leitor em seu próprio espaço - outro blog.

Assim é possível ter um outro modo de articulação e diálogo entre pessoas que se encontram todos os dias ou que não se conhecem - mas possuem quaisquer interesses em comum. Sem se expor, ainda que em níveis mínimos, tudo isso seria impossível. Mais do que conseguir uma simples audiência, os blogs são uma possibilidade de encontrar colaboradores, parceiros, amigos, de construir idéias em conjunto.

Então, com a cabeça menos pesada, mantenho o Savoir-Faire até quando puder.

55 melhores clipes de 2007

na minha humilde opinião:

01 - Justice - D.A.N.C.E
http://www.youtube.com/watch?v=fo_QVq2lGMs

02 - Grizzly Bear - Knife
http://www.youtube.com/watch?v=xuYZbYtAl9A

03 - Beirut - Elephant Gun
http://www.youtube.com/watch?v=kjeh6P4sRfw

04 - Noah and the Whale - 5 years time
http://www.youtube.com/watch?v=jRX5kH6IrkY

05 - Liars - Houseclouds
http://youtube.com/watch?v=kzZVvM8Dyzs

06 - Cave Singers - Dancing On Our Graves
http://youtube.com/watch?v=Prcb4bQvK5w

07 - Animal Collective - Fireworks
http://youtube.com/watch?v=W6KPDWNAPBU

08 - Caribou - Melody Day
http://www.youtube.com/watch?v=QklfmJ4vfLs

09 - Vetiver [ft. Adem, Vashti Bunyan, and Juana Molina] - Been So Long
http://www.youtube.com/watch?v=2Ct_4tNF80E

10 - Go Team - Grip Like a Vice
http://www.youtube.com/watch?v=w6KfJcjrSTM

11 - Battles - Atlas
http://www.youtube.com/watch?v=IpGp-22t0lU

12 - Deerhoof - The Perfect Me
http://www.youtube.com/watch?v=1rrnTDDhVnw

13 - of Montreal - Heimdalsgate Like A Promethean Curse
http://www.youtube.com/watch?v=5VeIL7juFE0

14 - Modest Mouse - People As Places As People
http://youtube.com/watch?v=HQJECnOIYSc

15 - Dan Deacon - The Crystal Cat
http://www.youtube.com/watch?v=SG5oyPLLkkM

16 - The Fiery Furnaces - Ex-Guru
http://youtube.com/watch?v=Ox_8-FCejaE

17 - Los Campesinos - You! Me! Dancing!
http://www.youtube.com/watch?v=Nj6SO_yKMe8

18 - The Shins - Australia
http://www.youtube.com/watch?v=OHTSxw6zN1E

19 - The Decemberists - O Valencia [Director's Cut]
http://www.youtube.com/watch?v=6Ad7XFStuB8

20 - Daft Hands - Harder, Better, Faster, Stronger
http://www.youtube.com/watch?v=K2cYWfq--Nw

21 - Kanye West - Can't Tell Me Nothin' w/ Zach Galifianakis
http://www.youtube.com/watch?v=PpwgYsYWwdc

22 - Black Moth Super Rainbow - Sun Lips
http://www.youtube.com/watch?v=MC6aAs4kkbY

23 - Panda Bear - Comfy In Nautica
http://www.youtube.com/watch?v=25_gjUbvqNg

24 - Black Lips - Katrina
http://youtube.com/watch?v=7QxwA4ZCioI

25 - Beach House- 'Master of None'
http://www.youtube.com/watch?v=s2YiUTh9dj4

26 - Tobbaco - Hawker Boat
http://www.youtube.com/watch?v=TCjn-A-Hxfg

27 - A Place to Bury Strangers: "To Fix the Gash in Your Head"
http://www.youtube.com/watch?v=v5VXqHARqFA

28 - Wooden Shjips - Dance, California
http://youtube.com/watch?v=eJMFTVenGJk

29 - The Wrong Trousers - Video Killed the Radio Star
http://www.youtube.com/watch?v=VSUX9byu6NY

30 - Tokyo Police Club - Your English Is Good
http://www.youtube.com/watch?v=1KGCAffvGIw

31 - Queens Of The Stone Age - "Sick Sick Sick"
http://www.youtube.com/watch?v=CcXCaXz0GbU

32 - Fujiya & Miyagi - Ankle Injuries
http://www.youtube.com/watch?v=N5XVeENmLMk

33 - Mavis Staples "Eyes On The Prize"
http://www.youtube.com/watch?v=0ZWdDI_fkns

34 - Peter, Bjorn & John - Objects Of My Affection
http://www.youtube.com/watch?v=ZxVRhcLXftg

35 - Holy Fuck - Milkshake
http://www.youtube.com/watch?v=2c4ZV2oioLE

36 - Los Campesinos!- The International Tweexcore Underground
http://www.youtube.com/watch?v=rHt2CveSXqE

37 - Jens Lekman - Sipping on the Sweet Nectar
http://www.youtube.com/watch?v=v1kIFX7p29I

38 - Shocking Pinks - End of the World
http://youtube.com/watch?v=9CkYzuW3dzE

39 - Kevin Drew (and J Mascis) - Backed Out On The...
http://youtube.com/watch?v=ZW3BN_nwpzc

40 - Menomena - Rotten Hell
http://www.youtube.com/watch?v=t0LIBCw8syA

41 - A Hawk & A Hacksaw with The Hun Hangár Ensemble - Serbian Cocek
http://www.youtube.com/watch?v=_dBD1LttEVk

42 - The National - Mistaken For Strangers
http://www.youtube.com/watch?v=cgRsYkKb1eI

43 - Gui Boratto - Beautiful Life
http://www.youtube.com/watch?v=SuoxwpKnHQk

44 - LCD Soundsystem - "All My Friends"
http://www.youtube.com/watch?v=i2V_ZT-nyOs

45 - The Flaming Lips - She Don't Use Jelly [Live From Oklahoma}
http://www.youtube.com/watch?v=T_qJlxrQp8A

46 - Feist - My Moon My Man
http://www.youtube.com/watch?v=zWrNCCx2p5U

47 - Retrigger - Reckless Driving is Not a Sin
http://youtube.com/watch?v=7glgqfC15yM

48 - Ben Kweller - Penny On The Train Track
http://www.youtube.com/watch?v=nvuRN-mfM4g

49 - Low - Breaker
http://youtube.com/watch?v=zmo7tyrtGW0

50 - Dinosaur Jr.-Been There All The Time
http://www.youtube.com/watch?v=QQnes8cvFkc

51 - St.Vincent - These Days
http://www.youtube.com/watch?v=OjxyNNNiwqc

52 - Chromeo - Fancy Footwork
http://www.youtube.com/watch?v=EMz0mkfPCjY

53 - Parts & Labor - The Gold We're Digging
http://www.youtube.com/watch?v=YwCFP1qyz9k

54 - Múm - They Made Frogs Smoke Til They Exploded
http://www.youtube.com/watch?v=EfetdPWDtko

55 - Aesop Rock - None Shall Pass
http://www.youtube.com/watch?v=l1u43KDiWD0

Ah, esse Deus...

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O Terrível Mundo dos Canais Baixos

Na minha casa não tem TV a cabo. Pra começar porque sou pão-duro e acho que tem coisa mais interessante pra gastar meu (pouco) dinheiro. Depois porque sou preguiçoso demais pra fazer um gato. Até sei como faz, mas não tomo iniciativa e ainda fico pensando que se eu tiver canais minimamente interessantes, como a Fox ou o Telecine, talvez eu perca ainda mais tempo fazendo nada do que já perco na internet &c.

Mas o fato é que, não tendo TV a cabo, eu sou obrigado a ver pelo menos um pouquinho de TV aberta por dia. Pois depois de ler 6, 7 horas direto, sempre preciso de uns minutinhos sendo um espectador passivo, sem ter que entender nada, pensar em nada, nem dar input maior do que trocar um canal. Deve ser isso que chamam de "couch potatoing".

Chego finalmente ao assunto que quero tratar: o desafio que é ver TV aberta. Cada dia me surpreendo mais com a baixa qualidade das produções. É um esquema meio surreal: os apresentadores são antipáticos e pouco interessantes, os temas são mal escolhidos, os textos são péssimos e normalmente mal-informados, e ainda por cima, quando não é na Globo, cenário, vinheta, figurino e tudo mais são um nojo.

Acaba que eu divido a programação nas seguintes categorias:


a) Programa bom de ver

Não significa que ele seja bom de verdade. Quase nunca o é, mas ao menos ele cumpre o que se propõe. Nesta categoria estão incluídos basicamente noticiários e programas de esporte.

Obviamente o texto e a narração dos programas de futebol são irritantes pra diabo, especialmente as metáforas poéticas da "escola Tino Marcos de jornalismo esportivo" e a voz de gralha do Galvão, mas você vê ali os resultados, as transferências, os jogos, e tal (ainda tem o fato de que a atenção é sempre maior aos times de SP, mas deixa isso pra lá).

Obviamente o posicionamento político dos jornais é sempre tosco, mas ao menos você fica sabendo do que está acontecendo no mundo (ainda que depois precise buscar um ponto de vista mais interessante em outro lugar depois).

Em suma, são programas que você assiste pelo que são, e fica relativamente satisfeito. Também nessa categoria estão os raríssimos clipes da MTV, alguns de culinária e uns poucos documentário da TVE.


b) Programa que é ruim, mas é bom

A maior parte da programação. Isso porque eu tenho um senso de humor ácido, como todos sabem. Ver esse tipo de programa é uma espécie de metadiversão. Porque na verdade você não está realmente se divertindo com o tema do programa, mas com a maneira tosca e idiota que ele é feito.

Acho que o exemplo supremo seria Malhação, nos tempos áureos de Cabeção, Myuki e cia., mas ultimamente a novelinha caiu pra categoria (c), infelizmente (ver abaixo).

Mas não faltam representantes de ruindade boa na TV aberta brasileira. Quem é do Rio já deve ter visto o programa do Wagner Montes (sim, o marido da Sônia Lima, ex-jurado do programa de calouros). É desses programas policiais direitosos, tipo Datena, Ratinho, só que com a diferença que não dá pra entender picas do que o Wagner fala, pois a pronuncia dele é péssima, e ele às vezes parece dar em cima das repórteres dele. Hilário.

Tem também os Leão Lobos, Ana Hickmans, e todos os outros de fofoca e bobeira pra donas-de-casa, que te fazem pensar sobre a maneira bizarra que o sistema de celebridades se implantou no Brasil (depois eu escrevo um post só sobre isso). Sempre geram piadinhas e comentários sobre o novo penteado da Britney, o cachorro da Suzana Vieira, ou qualquer coisa importantíssima do tipo.

Mas meus favoritos mesmo são os game-shows, especialmente o do Gilberto Barros (A Grande Chance). É maravilhoso! Você responde as perguntas, se sente mais inteligente que as pessoas que participam, zoa as dancinhas das figurantes, os erros de pronuncia do apresentador, e ainda fica imaginando que, se fosse lá, poderia ganhar um automóvel zerinho (fonfon)!


c) Programa que é tão ruim que nem chega a ser bom, nem por piada

Já tentou er Raul Gil? Luciano Huck? Simplesmente não desce pela goela, não dá. Nem pra achar eles ridículos, pra se sentir melhor que eles. Nada. Pelo contrário, dá uma certa angústia de assistir, às vezes tonteiras, e uma sensação de que há algo de muito errado com o mundo.

Pra mim novela entra nessa categoria (mas entendo que pra muita gente esteja na (b), ou até mesmo na (a).

A MTV como um todo, infelizmente, também me parece ser um grande (c). Antigamente você via uns clipes, coisas assim, uns programas sobre música que poderiam ser interessantes. Mas hoje em dia você tem um monte de Namoro na TV, Ana Maria Braga e outros programas genéricos, só que com uma "linguagem jovem" o que significa simplesmente vinhetas com animação muito colorida, umas gírias paulistas desprezíveis do tipo "na faixa" e "tudo sussa", e apresentadores nojentamente modernosos, do tipo que você cuspiria se encontrasse na rua. Mesmo os raros programas sobre música estão piores do que nunca, com poucas informações e textos mal escritos, do tipo engraçadinhos-sem-graça - e o pior: lidos em uma retórica "tenho piercing, fiz publicidade na FAAP e adoro CSS". Além disso pega cheia de chuvisco aqui.


s) Sílvio Santos

Merece uma categoria toda sua. Simplesmente porque o Senor Abravanel consegue unir as categorias (a), (b) e (c) em um mesmo bloco. Seu padrão de qualidade tosco, porém testado e aprovado é algo que todo mundo conhece. Cenários ruins, músicas ruins, conceitos roubados de programas gringos e os mesmos trejeitos de sempre, que todo mundo acha que sabe imitar.

E o melhor é: ele sabe de tudo isso e usa tudo isso de uma maneira muito estranha. É como se fosse uma metametadiversão, nesse caso, pois o "seu" Sílvio joga com sua imagem, apelando tanto pra quem gosta dela quanto pra quem se diverte zoando ela, de maneira ciente e aberta, como se falasse "pode zoar, desde que continue assistindo e comentando". E dá certo, você acaba se cativando pelo cara, mesmo que seja se cativando por odiar ele, ou por zoar ele. E o Roque, e o Lombardi, e o Jassa, e o Pedro de Lara, e tudo mais que o circula.

No fim das contas isso me faz pensar que, com tudo isso, acho que eu não estou mal perdendo meu tempo com Silvios, Wagners, Gilbertos e etc, ao invés de Houses, Mythbusters, e não sei mais o que. Pois o que eu quero MESMO ver eu posso baixar na internet ou ver no youtube, e o resto é só pra passar o tempo mesmo. Então, que diferença faz uma diversão boba na Fox ou uma diversão boba num plano de abstração mais alto, como no SBT? Acho que vou continuar sem gato mesmo.

domingo, 4 de novembro de 2007

A pirataria explicada às crianças

A nova pirataria que explodiu tão de repente usando dos novos meios digitais parece ter emburrecido a maioria dos burocratas do entretenimento. Os mais espertos a encaram como um concorrente, outros querem combatê-la através de restrições que prejudicam seu mercado consumidor.

Você aluga três filmes originais em uma locadora, que paga impostos e faz tudo certinho. Na porta da locadora você vê um cartaz gigantesco falando dos males da pirataria. Ok, mas você é um cliente, está lá pra alugar e não pra comprar uma cópia pirata ou algo parecido. Acaba levando três filmes pra casa, ansioso pra ocupar aquela quarta-feira tediosa com alguma coisa. Assim que você insere um deles ao invés de surgirem alguns trailers, mais propagandinha anti-pirataria. Você tem que perder dois minutos da sua vida vendo isso em um filme que foi alugado legitimamente? Nem precisa responder.

Um dos três filmes é realmente bom e merece entrar pra sua coleção, então você decide que vai comprá-lo quando tiver uma chance. Alguns meses mais tarde você depara com o título numa loja de departamentos, a um preço acessível, e leva ele pra casa. Num domingo qualquer você senta com a sua garota pra rever o filme e assim que o DVD começa a rodar o mesmo vídeo anti-pirata, em toda sua majestade, invade a tela. "Porra, eu comprei esse filme!" você diz enquanto pensa que uma cópia pirata custaria uns R$ 20 a menos e não teria esse incômodo. Mas você não comprou pirata porque não se coleciona um DVD com uma capa feia e título escrito errado com caneta de retroprojetor.

Já quem comprou um CD não pode copiar pra deixar no carro, já que ninguém em sã consciência deixa os originais de bobeira, porque uma trava anti-pirataria não deixa. Outro que adquiriu um livro em PDF não pode copiar o texto ou reproduzir o arquivo um número ilimitado de vezes, pelo mesmo motivo. Em todos os casos, a cópia pirata é livre e a original restrita.

Os executivos da indústria do entretenimento andam extremamente neuróticos já que seus produtos podem ser reproduzidos e distribuídos a um custo muito próximo de zero. Eles ainda encaram a pirataria como algo totalmente vil e imoral e por isso têm que lembrar os cidadãos disso o todo tempo, principalmente colocando anúncios e restrições no que é original. O que não parecem não entender é que a pirataria já tomou formas próprias em todas as culturas e países do mundo, e que as pessoas sabem que é errado piratear. Ao invés de investirem tempo e dinheiro em travas e lições de moral que atrapalham e chateiam seus consumidores eles deveriam tentar mudar a forma de vender seus produtos.

Hoje em dia quando vão ao cinema, as pessoas pagam pela experiência de ver o filme em uma tela grande, com um ótimo som, comendo pipoca e tomando coca-cola acompanhados pelos amigos. Se quisessem "apenas" ver o filme, poderiam gastar R$ 5 no camelô da esquina e levarem o mesmo pra assistir em casa. Ninguém vai ser preso por fazer isso em nenhuma parte do globo terrestre. Se a indústria cinematográfica está preocupada com a pirataria ela devia se esforçar em fazer a experiência de ir ao cinema (ou ter um DVD original) cada vez mais divertida e prazerosa ao invés de buscar doutrinar e ameaçar seus consumidores por causa da pirataria.

Da mesma forma, se a indústria fonográfica tivesse apostado suas fichas no formato mp3 (ou na música digital) mais cedo e implantado lojas virtuais, ou mesmo maquininhas de vender música em shopping centers, seria muito melhor pra todo mundo. Claro, imaginando que seria vendido mais barato, já que ninguém ia ter que gastar milhares em estoque e distribuição de CDs.

Como nada disso foi feito a pirataria está aí, forte como nunca. Além dos produtos serem mais baratos que os originais, ou mesmo gratuitos, ela se utiliza de meios de distribuição e reprodução que permitem ampliar o público de um determinada mídia de maneira exponencial. As cópias piratas, apesar de tudo, suprem uma demanda reprimida e chegam onde o mercado legal ainda não conseguiu atingir.

O Brasil tem um caso interessante nesse aspecto: muitas bandas de forró e brega conseguiram distribuir seus CDs prensando cópias baratas e vendendo para os camelôs. Enquanto poderiam gastar milhares de reais em CDs caros, e que seriam vendidos só em lojas especializadas, eles souberam aproveitar de uma estrutura criada pela pirataria de música pra conseguir chegar ao público.

A maioria das empresas procura vender seus produtos com pesadas restrições ao consumidor porque entendem que qualquer um deles pode colocar o produto de graça na internet. Todos nós somos, na cabeça deles, criminosos em potencial. Não chega a ser mentira, mas... está funcionando? Não temos praticamente todos os produtos digitais que se encontram à venda também disponíveis em versões “gratuitas”?

Outro ponto a se pensar é a real dimensão do dano que a pirataria causa. Tropa de Elite caiu nos camelôs antes de pintar no cinema e o diretor já correu pra dizer que o filme seria um fracasso por causa disso. Nada mais inocente do que essa declaração, já que durante os meses subseqüentes não se falou em outra coisa que não no filme. Obviamente Tropa foi um recorde de bilheteria, porque muitos queriam a experiência de vê-lo no cinema.

Apesar disso, as grandes empresas alegam milhões de reais em prejuízo todo ano, usando a lógica absurda de que uma cópia pirateada é uma cópia legal que deixou de ser vendida. Esse raciocínio parece razoável mas é fantasioso, já que não se pode assegurar que todos os que adquirem produtos piratas são consumidores em potencial de originais. Grande parte do consumo de pirataria se dá pela conveniência e pela onipresença. Camelôs vendendo CDs e DVDs piratas estão em cada esquina, e têm capacidade de atingir muito mais pessoas que quaisquer lojas. Assim o dinheiro “perdido em pirataria” é mais o resultado de cópias baratas e abundantes do que de uma procura do público em consumir essas cópias.

Outro grande vilão seria a “pirataria doméstica”, os downloads ilegais de séries, filmes, livros e revistas. E esse é um caso ainda é mais complexo de se calcular os supostos prejuízos. Não é uma pirataria feita para gerar lucro, mas um livre compartilhamento de conteúdo entre aficionados de um determinado assunto ou mídia.

A título de exemplo, grande parte de quem baixa quadrinhos, também compra quadrinhos. Na verdade a possibilidade de pegá-los da internet representa uma chance de ampliar a variedade de títulos lidos. Mas da mesma maneira que o freqüentador de cinema não vai lá só para assistir o filme, o consumidor de quadrinhos também não paga simplesmente para ler a história. Ele quer ter o material, a edição de luxo, poder guardar na estante, ler antes de dormir, carregar pra outros lugares. As vantagens de se ter um produto material são imensas.

Da mesma maneira o formato mp3 ampliou a quantidade de música consumida no mundo, ainda que ilegalmente, e ajudou muitos artistas a ganhar público. Fora os multimilionários do Mettallica, nenhum artista reclama do fato de suas músicas estarem disponíveis de graça. O que se vê hoje em dia é um movimento das grandes gravadoras para reprimir os downloads ilegais (inclusive com processos doentios) mas nenhum movimento organizado de artistas – que sempre ganharam dinheiro com shows.

A questão, que vem sendo repetida exaustivametne ao longo do texto, é que existem pessoas em todo mundo dispostas a gastar dinheiro com produtos que já se encontram pirateados, que querem a experiência do original. E isso não é ideologia, é escolha. Encostar num cantinho e fazer beiço, ou berrar que tudo está errado não vai resolver problemas de mercado. Se isso é tudo o que a indústria do entretenimento pode fazer, então é melhor admitir que foram derrotados pela máfia chinesa, nerds sedentários, webdesigners suecos e camelôs.

A obsolência do mercado de entretenimento frente às novas técnicas de produção e distribuição são as principais do avanço vertiginoso da pirataria nessa última década. E todas as subseqüentes tentativas de doutrinação e repressão aos consumidores não vão reverter esse quadro. Mais que isso é preciso pensar em novas formas para o mercado do entretenimento frente às mudanças socioculturais e tecnológicas. Ampliar as possibilidades do consumidor e conseguir concorrrer com os piratas não é simples, não é fácil, mas é a única solução.

---

A verdadeira revolução no consumo de livros, música e filmes não é causada pela pirataria. Os piratas só reproduzem o que está por aí, mas as tecnologias e know-how apropriados por eles também podem ser usadas por pessoas e grupos que produzem.

À medida que avançam os processos de publicar, gravar e filmar, torna-se muito mais fácil para os criadores controlarem os meios de produção. No passado, custava uma fortuna gravar um disco de qualidade. Hoje qualquer estúdio medianamente competente consegue fazer isso a um preço camarada. Antes era necessário gastar dinheiro pra fazer seus textos, músicas e filmes chegarem até um público, coisa que a internet a um custo próximo de zero.

Em um mundo onde qualquer um pode produzir e ter audiência, muitos vão fazer isso e alguns vão fazer com qualidade. E, seguindo na contramão, alguns artistas consagrados vão ver a oportunidade de se tornarem independentes, como aconteceu com o Radiohead - cujo álbum colocado "de graça" na internet parece ter rendido a eles cerca de US$ 6 a 10 milhões nos primeiros dias.

Para ir além

http://arstechnica.com/

http://www.informationarchitects.jp/

http://gardenal.org/trabalhosujo

http://wumingfoundation.org

sábado, 3 de novembro de 2007

momento recife



passo mal. devendra é muito recife mas eu vou mesmo assim. e a performance do hippie dançandinho/comendo pêra/sendo hippie no meio do palco é melhor que a britney no vma.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

something's gone awry

i am going to write a play about the breakup of a marriage, and at the end of the play i am going to have a character say what people should say to each other in real life at the end of a marriage 'i'm sorry. you, being human, need a hundred affectionate and like-minded companions. i'm only one person. i've tried, but i could never be a hundred people to you. you've tried, but you could never be a hundred people to me. too bad. good-bye.'

vonnegut né minha gente.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

quinta-feira, 25 de outubro de 2007