quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Corona - vol. 2

tunts-tunts

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Em mais uma dessas conversas de bar que passam voando e têm intervalos cada vez maiores entre elas, debatia com Gabi Penélope quais seriam as mortes mais rock and roll da história do mesmo. Como o conceito de o que seria uma morte rock and roll começou a derivar muito e discordamos cada vez mais nele, decidimos fazer duas listas separadas. Aqui vai a minha.

Para mim o conceito de "morte rock and roll" é uma mistura de 1. o quanto eu gostaria de ter essa morte (sendo que quanto mais eu invejar a morte, mais rock and roll ela é) 2. quantos % do corpo do morto sobraram para o enterro e 3. a motivação da morte (i.e. suicídio é a coisa mais não-rock-and-roll do mundo).

Sendo assim, vejamos as 5 mortes mais rock and roll da história do rock:


5. Karen Carpenter (The Carpenters) - Anorexia

Karen Anne Carpenter e seu irmão Richard formavam a dupla perfeita da música pop: brancos, cristãos, afinados, fofinhos, eles eram tudo que a música pop queria nos anos 1970. No entanto, o que parecia um sonho de ternura escondia uma mulher de verdade, com anseios e problemas que a sociedade americana daquela época não estava disposta a expôr na mídia. Sua morte em 1975, provocada por um distúrbio alimentar, forçou um debate sobre o tema, justo em uma época em que as dietas milagrosas comandavam. O problema persiste até hoje, e o caso Carpenter entrou para a história do rock como um dos mais chocantes relatos de contraste entre a imagem do artista e sua vida real, além de ser um exemplo trágico do que o sucesso pode fazer com as pessoas.





4. Richie Valens, Big Bopper & Buddy Holly
- Acidente de avião

O episódio que ficou imortalizado na canção de Don McLean como "o dia em que a música morreu" foi um dos maiores traumas da história do rock e pode ser considerado um marco divisório entre a fase inicial do rock romântico e inocente dos anos 1950 com o rock sarcástico e realista da primeira metade dos anos 1960.

No dia 3 de Fevereiro de 1959, em Clear Lake, Iowa, um pequeno avião caiu em meio a uma forte tempestade. Dentro viajavam, além do piloto Roger Peterson, os rockeiros Charles Hardin Holley, Richard Steven Valenzuela e Jiles Perry Richardson Jr., três ídolos da juventude naquela época e que tiveram suas carreiras todas interrompidas ao mesmo tempo, graças ao péssimo planejamento da turnê "The Winter Dance Party", que marcou shows em 24 cidades sem se preocupar com a ordem em que eles iriam acontecer. Por causa disso, os artistas tinham que viajar longas distâncias em um ônibus com aquecimento quebrado. Logo no início da turnê, o baterista Carl Bunch teve os pés congelados e foi hospitalizado.

Com o saco cheio de passar frio no ônibus, Buddy Holly e banda decidiram contratar um avião para viajar até a próxima cidade da turnê. Antes da viagem, ambos os integrantes da banda se safaram da morte trocando seus lugares por dois outros headliners da turnê: Waylon Jennings cedeu seu lugar a um gripado Big Bopper, enquanto Ritchie Valens, que nunca tinha viajado de avião, conseguiu ficar com o lugar de Tommy Allsup no avião, em um prosaico cara-ou-coroa. O outro cantor principal da turnê, Dion DiMucci, da banda Dion & the Belmonts, também foi convidado por Buddy Holly a viajar no avião, mas ficou com vergonha de pagar $36 dólares pela viagem. Sua humildade, a gentileza de Jennings e o azar de Allsup acabaram matando, sem querer, os três ídolos juvenis e marcando para sempre a trajetória do rock and roll.





3. Marvin Gaye
- Assassinado pelo próprio pai

Durante os anos 60, Marvin Gaye foi o maior cantor da gravadora Motown, emplacando sucessos como "I heard it through the grapevine" e "Ain´t no mountain high enough". No entanto, sempre antenado com seu tempo, no final dos anos 60 Gaye ficou entediado com o sistema Motown de fazer música - regras estritas que criavam hits garantidos no rádio. Em 1971, contrariando crítica, público, amigos e patrões, lançou um disco genial chamado "What´s Going On", um marco na música pop que definiu de uma vez por todas a vocação da soul music e do funk ao comentário social e a temas mais maduros, ao invés do mesmo baby-eu-te-amo de sempre. Gaye teve uma vida conturbada, cheia de altos (vários hits, milhões de discos vendidos) e baixos (a morte de sua parceira Tammi Terrell em 1970, o divórcio em 1978, a falência total em 1979). Em 1983, fez sua última turnê pelos EUA, e então refugiou-se na casa dos pais, lutando contra a depressão e as drogas. Apesar de tudo isso, e das várias tentativas de suicídio, Gaye morreu em 1984, assassinado a tiros, dentro de casa, pelo próprio pai, durante uma briga sobre os negócios da família.




2. Mark Sandman (Morphine)
- Ataque cardíaco em pleno palco

Na verdade essa lista nasceu porque eu estava pensando em como deve ser paia morrer velho, com esclerose múltipla, em coma... e que deve ser muito mais doido fazendo alguma coisa que você gosta muito. Então eu me lembrei do Mark Sandman. Morrer de ataque cardíado é uma coisa. Morrer de ataque cardíaco no meio de um show, é outra. Ele tinha 47 anos de idade, e provavelmente fumava, cheirava, bebia e tudo mais. Foi uma morte digna, de guerreiro: tombar no campo de batalha durante o combate. Poucas pessoas podem se dar ao luxo de morrer como viveram.


1. John Entwistle (The Who) - Overdose aos 57

Só tem uma coisa mais rock and roll do que morrer de ataque cardíaco no meio de um show aos 47 anos - morrer de overdose aos 57 anos com duas putas em um hotel de Las Vegas. Durante toda sua carreira, Entwhistle era "aquele baixista quietinho do Who que nunca fala nada e fica o show inteiro paradão". Obviamente, apenas fãs idiotas pensavam isso. Entwhistle era um porra louca como outro qualquer, fazia shows fantasiado de caveira e ainda mandava aquela voz de capetão em "Summertime Blues" e "Boris the Spider". Além disso, tinha mais de 200 baixos, e tocava com uma distorção que muitas bandas de metal teriam medo de usar. Sua morte é um exemplo para todos nós, que esperamos morrer antes de ficarmos velhos. Ele, com certeza, conseguiu!

Nota do editor: essa lista é obviamente uma grande baboseira, como toda lista sempre é... se você discorda ou tem sugestões de mortes mais rock and roll, deixe um comentário!!

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Flickr, My very best of

Quando o Photolog se popularizou por essas bandas, em meados de 2oo2, eu costumava a freqüentá-lo pra ver fotos bacanas feitas por fotógrafos profissionais - e também de algumas garotas com ego gigantesco e, hmm, algum talento. A coisa foi virando febre, o serviço piorou, o site ficou cheio de anúncios e pouco a pouco os bons fotógrafos foram abandonando o inferno que tinha se estabelecido por lá. As garotas, ao contrário foram aumentando em quantidade e variedade e o Photolog virou um grande espaço pra paquerar e fazer rasgação de seda, como eu pude comprovar durante o ano que usei a lan-house aqui do lado.

Pra felicidade geral outro serviço, o Flickr, voltou a ser usado por bons fotógrafos. Eu já freqüentava o blog do site pra ver os destaques por lá, e também as galerias de alguns amigos e conhecidos. Desde que eu comprei minha pequena e insignificante Canon Powershot A540 fiz uma conta lá pra ir postando minhas fotos enquanto aprendo alguma coisa. O Flickr é muito mais funcional pra isso do que o Photolog em grande parte devido aos grupos, comunidades enfocando estilos e temas fotográficos onde há um pequeno fórum e uma "pool" onde os membros podem ir jogando suas fotos - de acordo com certos critérios. Isso permite que você possa escolher que tipo de fotografia deseja ver e também submeter as suas à avaliação de terceiros, que geralmente dão alguns conselhos interessantes.

Como também é possível adicionar membros como "contatos" e acompanhar todas as novas fotos postadas por eles, você sempre pode acompanhar aqueles que você considera que valem à pena.

E, pra mim pelo menos, outra grande vantagem do Flickr é que ele tem um caráter realmente global. É possivel encontrar boas galerias de pessoas de qualquer cultura e religião do mundo. A título de exemplo, eu acompanho alguns japoneses, um , chineses, dois paquistaneses, um brasileiro que mora na Tailândia, um indiano sikh(!), um iraniano, e por aí vai. A maioria deles fotografa bem, mas o que me interessa mesmo é ter alguma noção do que eles vivem por lá, a maneira que vêem o mundo - e outras afetações antropólogicas, blablablabla.

Segue uma amostra do que me empolga no Flickr, seja pela qualidade da fotos, seja pelo conteúdo.

Tatiana Cardeal

http://flickr.com/photos/tatianacardeal/

Astrocruzan

http://www.flickr.com/photos/cruzan/

Felipe Magalhães

http://www.flickr.com/photos/felmagalhaes/

Tetsuya Kusuyama

http://www.flickr.com/photos/slashstyle/

Snjezana Josipovic


http://www.flickr.com/photos/snjezanaj/

SakSak

http://www.flickr.com/photos/saksak/

Alexandre Magalhães

http://www.flickr.com/photos/alexmagalhaes/

Puja Parakh

http://www.flickr.com/photos/puja/

Chieska Fortune

http://flickr.com/photos/smallfortune/

Os Invisíveis

Gravado no fim de 2004, Os Invisíveis é um documentário sobre a batalha dos geniais André Dahmer, Allan Sieber e Arnaldo Branco em busca de visibilidade no mercado editorial brasileiro.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Recomendação #17


Quando fui convidado para participar do Corona, imediatamente me veio a mente escrever sobre histórias em quadrinhos[1].

Mas feita a convocação às armas, as turbulências do dia a dia me fizeram esquecer do blog por duas ou três semanas. No entanto, minha idéia original era fazer um post humilde e gentil de apresentação e falar um pouco de Jimmy Corrigan or The Smartest Kid on Earth. Quando entrei ontem no site depois de uma intimada cortês do Bernardo, minha estratégia de aceitação no grupo veio abaixo, já que alguém havia escrito sobre o Jimmy Corrigan, e bem melhor do que eu faria. Não conheço o Cláudio, mas começou mandando muito bem no post sobre o Chris Ware.

Assisti ano passado ao Ghost World, filme bem bacaninha sobre duas garotas, uma geek e a amiga descolada dela (Scarlet Johansson em 2001, com 17 anos), e alguns ritos de passagem na vida delas, no momento transitório entre a adolescência e a vida adulta. É na verdade bem menos clichê do que parece, e a caixa do DVD dizia se tratar da adaptação de um quadrinho indie. Achei legal e fui procurar na Amazon. Não sei se o Jimmy Corrigan foi um dos pacotes que a loja ofereceu ou se vi em alguma lista de recomendados, mas uma história urbana de desilusão, solidão, e alienação parecia interessante o suficiente para valer a compra.

The Smartest Kid on Earth ganhou um Eisner por seu design, mas é a união entre arte e narrativa que fazem essa graphic novel ser uma das histórias mais poderosas que eu já li. Não são só brincadeiras no Ilustrator: cada centímetro da obra é aproveitada, carregada de simbologia e uma ironia afiada, as armas narrativas que se tudo der certo, vão te fazer ficar triste e chorar.

Chris Ware quer contar uma história sua para todo mundo que já se sentiu desesperado, sozinho ou distante. Não é uma história fácil de ler, nem é recomendada para alguns momentos da vida. O autor sabe disso, e não deixa de atacar os hipsters que se interessam apenas por ter o livro para se sentirem mais legais ou modernos, e recomenda na excelente “General Instructions”:

“The book need not be read at all, but simply placed on display as a symbol of one´s youthful exuberance, like a flashly motorcar, or the music of the American south, performed by an aristocrat”.

Não percam!



[1] Bem, essa é uma meia verdade. Eu queria mesmo era escrever sobre música. Mas tenho preguiça, por faltar uma certa virtuosidade, ser pobre de adjetivos (admito que tenho dificuldade em extender meu vocabulário de adulação musical para muito além do “essa guitarra é do caralho” ou ofensas brejeiras do tipo “ao invés de ouvir esses viados de terno e All-Star, você devia era catar um torrent com a discografia do Velvet Underground”) e francamente, acreditar que tem muita gente por ai fazendo isso muito melhor que eu faria. Mas vou escrever sobre música também, ou assim eu espero.

Perguntas pertinentes




Depois de analisar o seguinte site:

http://rioforpartiers.com/portugues/food/comida_rua.htm

fiquei com algumas dúvidas e gostaria de pedir aos amigos leitores e colegas de escrita que me ajudassem a responder:

- O que é um triângulo de origem árabe?
- Por que o pastel frito parece um "bolinho" e o assado é uma "torta dobrada"?
- Desde quando "pizza dobrada" fica triangular? Pizza quadrada caiu em desuso no século III.
- "Lanche árabe frito de trigo" - o que é "frito de trigo"?
- Por que algumas pessoas insistem em chamar macaxeira de aipim?
- Esse cara já comeu algum croissant na vida? Ela fala croissant 3 vezes no texto e em nenhuma das 3 faz sentido.
- Em que planeta as pessoas recheiam pão de batata com galinha??
- Por que só o misto quente tem sombrinha?
- Por que "hambúrger" tem acento e "X-Burger" não?
- Qual é o problema de passar o salsichão no vinagrete?
- Que pimenta é essa que não devemos comer com o "bolo de peixe"?
- Por que o doce de leite é mais rico que o caramelo?
- Torta dobrada???
- Que espécie de troglodita faz folheado de espinafre?

Ai. Chega. Não agüento mais!! Top5 sites mais sem sentido que eu já vi!!!

domingo, 19 de agosto de 2007

O Código Veevee

Como todos sabem, há algum tempo já venho me dedicando aos estudos bíblicos e à exegese de textos apócrifos, em especial ao Apocalipse de Baruc e à Epistola aos Laodicenses. Unindo isto com meu recente interesse pela semiologia da imagem, informada por Dubois e Barthes e pelas ferramentas analíticas do estruturalismo levistraussiano, resolvi redigir um nano-ensaio sobre uma foto que recentemente parou em minhas mãos.
Trata-se de uma imagem que mostra um momento das comemorações do último aniversário de Theo Costa Duarte, em 2007. O evento deu-se em sua residência, e a fotógrafa na ocasião foi nossa cara Veeveeane Andrade.
A observação imediata desta foto nos remete a uma das imagens mais presentes e importantes do repertório imagético da cosmologia ocidental judaico-cristã: A Última Ceia, aqui apresentada em sua mais célebre variante, pintada por Leonardo DaVinci.

Olhem bem para cada figura. Ambas possuem uma composição semelhante, na qual os atores se distribuem horizontalmente ao longo de uma mesa, durante uma refeição noturna, uma ceia. Em ambas, um personagem humano central funciona como punctum saliens: um homem barbado e de aparência serena. Na pintura, Jesus Cristo de Nazaré; na foto, Rafael Barbi do Jaraguá. Também nos dois casos, o alimento presente na mesa é o pão (de queijo) é o vinho (de cevada / de trigo). Há uma inversão interessante: no quadro, as janelas apresentam montanhas gloriosas às costas dos personagens, ao passo que, como todos sabemos a janela com as montanhas de Minas encontravam-se à frente dos personagens da foto (quem já foi na casa do Theo sabe). Entretanto, permanecem as portas nas laterais, simbolizando os múltiplos porém finitos caminhos da cristianismo.

Mas a semelhança mais impressionante reside na apresentação dos personagens: na pintura, temos 13 pessoas; já na foto, 11, porém se lembrarmos que Laura e Vitinho estavam ao lado da fotógrafa (de maneira que não apareceram na imagem), temos, em ambos os casos, 13 personagens, além do autor (Veevee/DaVinci). Um número cabalístico e carregado de alto teor simbólico. Passemos à análise dos personagens:

Raul é o mais afastado de todos, apesar de não estar na extrema esquerda, de forma que representa Bartolomeu. Há semelhanças entre a história de Bartolomeu e de Fu, sobretudo o fato de que o primeiro viajou à armênia após Pentecostes para divulgar a palavra de cristo, e Fu viajou através da Europa a fim de divulgar o BreakCore.

Mário é o único a olhar para trás, mirando Sara da mesma maneira como Judas Iscariotes encara João, filho de Zebedias. Lembremos que Sara faz Belas-Artes, e João é o padroeiro dos pintores e artistas. Mário, assim como Judas, é um traíra.

Rafael Rocha posa a mão sobre o ombro de Julia, como Santiago Menor posa sobre o de Pedro. Aqui parece haver uma inversão dualística, pois Rocha obviamente está mais próximo a Pedro, para quem Jesus disse "Tu és Rocha e sobre esta rocha edificarei minha Igreja". Júlia, por outro lado, deve ser associada a Tiago Menor não apenas por sua estatura, mas também pelo seu passado misterioso. Ambos são pouco citados na Bíblia.

Letícia, a única a sobrar do lado esquerdo da imagem, de modo que deve ser André. A semelhança física é pouca, mas podemos perceber que simbolicamente o gesto de mostrar as palmas de André se equivale ao sorriso jovial e maroto de Letícia, que com ele demonstra sua inocência. André foi o primeiro Patriarca Ecumênico de Constantinopla, e portanto estava geograficamente próximo a Bartolomeu, assim como, por morarem juntos, Letícia está geograficamente próxima a Raul.

Quanto a Jesus e Barbi, não creio que seja preciso detalhar as aproximações: ambos são venerados por toda Cristianidade.

À direita imediata de Jesus, com apenas uma mão à mostra, Erika se equivale a Tomé por estar parcialmente coberta por aquele que vêm logo à sua direita: Theo, ou, no quadro, Tiago Maior, filho de Zebedeu. Perceba como a tonalidade da camisa de Theo e Tiago se aproximam. Mais uma vez, uma inversão dualista foi operada aqui, pois Theo é facilmente associável ao ceticismo de Tadeu, ao passo que Lelê, em mudança para Londres, deve ser ligada ao místico peregrino de Compostela.

Fred gesticula enfaticamente, mais ou menos como Mateus, que parece tentar convencer os demais apóstolos presentes no recinto. Mateus era coletor de impostos, ao passo que Fred estudou Ciência Política, o que é quase a mesma coisa, dada a pentelhísse de ambas as atividades.

Rogério tem os braços em movimento, tal qual Simão, o Zelote, que, como ele, também está no canto direito da cena. Como há pouco escrito sobre Simão tanto no cânone bíblico quanto nos apócrifos, não ouso traçar associações aqui.

O mistério que resta é descobrir quem, dentre Vitor e Laura, representa Filipe, e quem representa Tadeu. Dada a proximidade entre Filipe e Bartolomeu, eu apostaria na associação entre o primeiro e Vitinho, primo de Raul, nosso Bartolomeu. Resta para Laura São Judas Tadeu, padroeiro do Departamento de Polícia de Chicago e do Clube de Regatas Flamengo.

O que estas semelhanças querem dizer? Não ouso descartar a teoria de que uma inspiração divina tenha levado ao nosso movimento e posicionamento naquele fatídico momento, assim como ao ato fotográfico desempenhado por Veevee. Afinal de contas, ainda tenho um pézinho no animismo. Entretanto, uma explicação mais cientificista baseada nas teorias sobre história e estrutura de Marshall Sahlins nos permitiria dizer que, dado o fato de que as estruturas míticas de uma cultura são replicadas na ação através da mitopráxis cotidiana, tendemos a nos colocar daquela maneira e compor a imagem à maneira de DaVinci. As diferenças entre "original" e "cópia" seriam um exemplo do alto grau de discrepância entre normas e ações comuns em sociedades de história quente, onde as estruturas são performativas, como a nossa. Neste sentido, a fotografia seria uma deformação topológica da pintura, e poderíamos dizer que ambas pertencem a um mesmo grupo de transformação.

sábado, 18 de agosto de 2007

Eu quero uma máquina de escrever e pilhas de papel velho.
Eu quero uma mesa limpa, com uma caneca de café fumegante.
Um pacote de cigarros e uma garrafinha de uísque.
Um painel cheio de notas, uma redação cheia de imbecis.
Uma câmera Remington.
Os informantes que não cobravam.
Bailes de gala no Automóvel Clube.
Um Opala branco.
Aquela linda garota com quem dormi em 63
......depois de ter enchido a fuça de conhaque.
Tudo de volta...

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

i'm glad that you never said goodbye

e eu estava andando na rua e você estava manobrando seu carro e de repente aquela luz e BAM e a única coisa que eu podia ver era você e eu estava com tanto frio e você só me olhava enquanto eu olhava você.

eu tentei deixar algo pra trás. no seu carro. você algum dia achou? vai lá e procura de novo. eu tentei colocar uma canção na sua boca que é a minha boca mas ainda tão sua. quando eu não voltar, já que eu não vou voltar não devo voltar e você sabe, é só falar murmurar qualquer coisa e você vai me ouvir, vai ouvir essa voz. e eu não tenho medo, eu aceitei tudo tão bem e você não tentou me ajudar e é por isso que digo isso agora. eu pensei que você talvez entenderia. como eu entendi. já que nós somos a mesma pessoa com os mesmos olhos só que mais jovens mais velhas ou mortas. as outras garotas que você beijar vão escutar a minha canção e vão saber as coisas que eu sei sobre você, nenhuma dessas coisas é ruim. não beije muitas.a canção vai ficar mais distante a medida que o tempo passar e eventualmente você não vai poder me escutar mais e eu não poderei mais confortar você.

eu deveria...eu deveria...você pode segurar a minha mão? entrelaçar os seus dedos nos meus? eu posso ver os meus ossos e os seus ossos e a árvore, ela também tem ossos. você sabia? e eu sonho os seus sonhos o tempo todo agora.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Tempo

As saídas de emergência se localizam à esquerda da cabine de comando.

Sem tempo e sem nada. Sem chão. Sem sal. Nada. [Des]feito de coisas sem graça, engraçado é problema dos outros. A dor não passa e todo remédio que existe só faz piorar. A tarde é quente e muito densa, lembra uma borra de café. Quente.

Frio e completamente assustado. Os recalques da infância e as controversias da adolescência parecem deliciosamente interessantes em meio ao tédio bovino que toma conta das veias. O gosto seco de nada na boca, o ar que tão denso um que tivesse faca bem amoladinha poderia cortar-lhe os pedaços.

Escovar os dentes.

DENTES

As long as you love me já não é o bastante. Não, não é. É preciso que tenha cheiro e som e gosto e tato. E preciso que se veja, que se forme, que se pegue. É preciso. Precisamente calculado e a respiração é ofegantemente invariada.

É interessante como algumas coisas funcionam. Não existe ainda nenhuma explicação científica de por que é que as vezes o tempo passa tão devagar, e algumas outras, geralmente quando mais se precisa dele, tão depressa. Pelo menos não nas ciências de verdade, aquelas com números, tabelas e formas.

Outro dia ouvi um caso estranho: um sujeito, não sei o nome dele, parado na porta de uma dessas igrejas enormes, cheias de degraus e com aquelas portas imensas perguntou ao padre que saia da missa por que é que tudo ali era tão grande. Padres provavelmente entendem dessas coisas, deve ter pensado o sujeito, mas eis que aquele padre se limitou a responder que era pra que o tempo passasse mais rápido.

É verdade que existe um certo costume entre o clero de responder enigmaticamente as coisas que não tem resposta, e ainda mais enigmaticamente as coisas cujas respostas pretendem guardar entre os muros de sua fé; mas esse enigma me pareceu um tanto quanto interessante, pois veha: será que o padre quis dizer que construir igrejas ocupava os homens, e por isso fazia o tempo andar mais rápido? Ou será que respondia ele que o simples ato de contemplar uma obra tão cheia de graças e suntos fazia o tempo parecer mais insignificante?

Talvez devesse treinar meus olhos para que de fato minha alma pudesse através deles admirar o mundo, mas ao contrário dos poetas e dos professores de biologia do segundo ano, eu não vejo em olhos muito mais do que vejo em bocas e narizes. Minhas pupilas não são os mirantes da minha alma. No máximo, quando muito dilatadas, são o espelho eterno das amenidades que jogam sobre elas.

O que me intriga mais ainda é que num mundo onde todos reclamam da falta de tempo ainda existam pessoas que procuram os famosos passa-tempos. Ora, eu não quero que meu tempo passe assim tão depressa. Eu tenho um milhão de pequenas coisas, absolutamente inúteis e insignificantes pra fazer, e gostaria de poder usar esse tempo que as pessoas gastam por aí, sem ver, que nem dinheiro de bêbado. Gostaria de poder usar o tempo que as pessoas gastam construindo aquelas igrejas enormes, cheias de degraus e com portas imensas.

Talvez a resposta não seja essa. Acho que o padre estava dizendo que o tempo é muito grande, e precisa de espaço pra poder passar. Se a porta fosse pequenininha, ele ia ficar preso dentro da igreja.