quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Arthur

Ou "O Eterno Eufemismo do Livre Sonhador".


Seu eu lírico tem nome? O meu tem, se chama Arthur. Arthur é uma mistura pretensiosa de um leitor de Schopenhauer com um personagem qualquer de um filme noir.

Provavelmente não trabalha. Passa a manhã inteira dormindo e almoça sozinho em um restaurante com pano de mesa xadrez. De tarde vai ao cinema assistir alguma coisa em preto e branco, depois vai para casa e fica lendo livros aleatoriamente selecionados até que fique tarde o bastante para andar pela rua sem ser incomodado pelo barulho dos carros e das pessoas que moram na cidade em que vive. As noites nessa cidade são sempre muito frias e um pouco molhadas, a iluminação também não é das melhores, apenas umas lâmpadas amarelas aqui e acolá. É claro que os muros das casas e dos prédios são um pouco descascados, deixando a mostra alguns tijolos. Existem alguns bares onde Arthur as vezes pára para beber. A cidade escura, fria e molhada se chama Ribeiro.

Ribeiro é a capital de algum grande estado, e possui alguns milhões de habitantes. Nenhum deles parece despertar qualquer tipo de interesse em Arthur, que fala muito pouco, mas fuma compulsivamente. Certa vez resolveu tomar nota de tudo que falasse ao longo de um dia comum, e não foi muito. “O de sempre, por favor”, “uma entrada para o filme das três”, “dois maços, por favor” e “mais uma dose” foram as únicas coisas que anotou em seu caderno. Pensou que se essas fossem as únicas coisas que soubesse dizer, sua vida não seria muito diferente, e chegou a acreditar que talvez fosse, de fato, tudo que soubesse falar.

As paredes do quarto de Arthur são brancas, e decoradas com estantes de livros. Uma mesa redonda, no centro da sala, guarda sempre os cigarros, as chaves, e os fósforos de Arthur. No chão, um tapete com desenhos sem sentido, e no canto um sofá de couro desbotado.

Arthur escreve poemas que não rimam e contos com personagens que suicidam no final.

Não teve infância, já nasceu com trinta e poucos anos, e desde então nunca fez aniversário. Continua com os mesmos trinta e poucos anos. Se formou, antes de nascer, em alguma universidade que não tem muito a ver com a vida que leva. Administração, ou algo do gênero. Ou talvez Farmácia. Arthur não se lembra exatamente se já teve alguém na sua vida. Mãe, pai, namorada, amigos, mas sabe que já perdeu algumas pessoas, e se lembra de não ter chorado em nenhum dos velórios. Sabe também que ninguém irá ao seu. Ele mesmo não iria se não fosse obviamente obrigado a tanto.

Oh, a liberdade. A insuportável liberdade de Arthur.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Esquizofrenia em quatro atos.

O autor não sabe por onde começar esse texto. Na verdade nunca sabe por onde começar coisa alguma, especialmente aquelas que falam sobre algo realmente importante, e não são simples exercícios literários sobre sentimentos que não sente e verdades em que não acredita.

Ao contrário do que dizem, o pior tipo de angústia não é aquela que chamamos de “existencial”, sem nenhum motivo aparente além da própria dor da existência. O pior tipo de angústia é aquela que vem de uma dúvida muito clara e real que, na maioria das vezes, é criada por acreditarmos em algo que sabemos não ser verdade, ou preferirmos crer que são verdades as mentiras que inventamos.

Nesse ponto qualquer eventual leitor já deve ter percebido que o autor de fato não sabia por onde começar esse texto, e talvez nunca mesmo devesse ter começado a escrevê-lo. Estejam advertidos, portanto, que ele ainda não sabe exatamente como começa-lo. Então sintam-se livres para pularem um ou dois parágrafos, e esperemos que no ponto em que retomarem o texto, caso decidam faze-lo, ele já tenha se decidido a cerca de como começa-lo, e tenha uma idéia mais precisa do que é a que ele se destina.

Aos leitores de mais afinco (ou ainda, mais tempo livre), decididos a continuar lendo na integra esse texto, o narrador promete ser o mais breve possível, apesar de que já agora devem considerá-lo um escritor muito prolixo. Além de muito pouco talentoso, vez que já em meados do quarto parágrafo o texto ainda nem mesmo começou. Mais uma falha óbvia que devemos apontar é a constante repetição – a palavra “texto”, por exemplo, já foi utilizada sete vezes até agora – mas é que nem sempre podem se encontrar sinônimos, e a repetição as vezes se faz necessária. Palavras, como pessoas, vez em quando são ímpares e não aceitam qualquer tipo de substituição. Devem ter percebido também, caso tenham prestado atenção ao primeiro e ao segundo parágrafo, que o texto é absolutamente pessoal, e provavelmente discorrerá sobre algum sentimento que o autor pretende sentir no momento.

Acredito ainda que o texto não proporcione prazer estético de nenhuma sorte ao mais exigente dos leitores. Ora, se nem mesmo quando se preocupa em escrever de maneira bonita e agradável, com tiradas sagazes e frases inteligentes, o autor consegue redigir algo decente, o que dirão desse texto que escreve simplesmente como desabafo, que nada mais pretende além de causar conforto em uma hora de muitos segredos angustiantes?

O pior tipo de angústia é não ser correspondido. Desculpem a mudança tão brusca, mas é que há dois parágrafos atrás foi prometido que agora já teria tido início o texto propriamente dito, portanto, deixemos de lado as elucubrações em que nos perdemos nos parágrafos anteriores, e vamos direto ao ponto em que precisamos chegar. Repito, então, o pior tipo de angústia é não ser correspondido. A vida se faz de projeções, de um eterno criar e atender expectativas. Quando as expectativas que criamos não são atendidas, corremos em inventar desculpas para amenizar nossa frustração, e é daí que nasce a maldita dúvida. Somos idiotas o bastante para querer acreditar nas mentiras que criamos, mas não o bastante para ignorar completamente a verdade.

O tipo de mentira mais comum nesses casos, ironicamente, é o que diz exatamente o contrário. Diz que somos paranóicos, e que as verdades que nos saltam aos olhos são frutos dessa imaginação distorcida que possuímos, enquanto na verdade sabemos que fruto da imaginação é a esperança que insistimos em manter viva a todo custo. Aí reside a fonte de todo o mal. Nesse ponto deixamos de saber exatamente se estamos inventando as verdades ou se elas sempre estiveram ali, mas as mentiras que criamos nos impediram de percebê-las.

Vocês, leitores, devem estar se perguntando por que diabos estão conseguindo entender esse texto. Ora, ele simplesmente não faz sentido algum, e ainda assim vocês o entendem. Ele não se explica, não tem começo, e ele nem mesmo sintetiza muito bem o seu próprio motivo. Mas a resposta para essa pergunta é muito simples: Não existem leitores. Existe apenas um leitor. Esse texto está sendo redigido para uma única pessoa, então talvez seja hora de começar a trata-lo por “você”, e deixar de lado a pretensa impessoalidade da palavra leitores. Você, leitor, é o tema desse texto.

É claro que você é suficientemente esperto para saber que escritores nem sempre dizem a verdade sobre aquilo que sentem, mas dessa vez você sabe que é diferente, que existe alguma verdade naquilo que lê. Vamos então abandonar outra terminologia impessoal: a partir de agora os termos “autor”, “escritor” e “narrador” serão substituídos pelo pronome “eu”, pronome esse que estará se referindo a mim mesmo, este que por hora toma vosso tempo. Assim sendo resolvemos, em parte, o problema da repetição, vez que os termos “autor’ e “leitor” também já foram exaustivamente utilizados.

Você e eu temos diferentes expectativas. Você quer demais, e eu tenho quase nada. Você é a parte do poema que olha para as estrelas enquanto eu sou a que se esfrega na lama. Aquela lama suja e molhada, que fica bem no fundo do poço. Você é alegre, forte e divertido, entende de música e fala de cinema, é cheio de amigos, tem um bom emprego, uma casa bonita, um carro e um cachorro. As pessoas gostam de você e algumas delas te admiram. Eu, por outro lado, sou o cara que fica sozinho de madrugada, que olha para o teto do quarto por horas, que vê o sol nascer na janela implorando para Deus fazê-lo dormir.

Você é insistente. Acha que o telefone não toca por que estão todos ocupados. Eu já desisti, sei que a verdade é muito mais dura que isso. O telefone não toca por que não querem falar comigo, e estou completamente sozinho.

O seu único problema sou eu. Você, infelizmente, não vive sem mim. Você nunca entendeu por que é que toda sua vida o único poema que conseguiu decorar foi

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”

Eu, por outro lado, sempre soube.

Dou-lhe a chance, portanto, de dizer adeus. Aproveite para se despedir daqueles que chama de amigo. Diga à tua mãe que tentou. Planeje sua ultima festa, beba seu ultimo copo, fume seu ultimo trago. Olhe outra vez a paisagem da janela, admire o barulho dos carros.

Sinta saudade das pessoas que perdeu, e mais ainda, daquelas que nunca teve. Pense nos lugares que não viu e de tudo aquilo que não conseguiu. Ande, dance sozinho no seu quarto e assista novamente aos filmes que te agradam.

Escute uma ultima vez a voz de quem ama, por que depois partiremos.

Aconselho, se quiser, que seja discreto. A única coisa que sempre tivemos em comum é o gosto pela discrição. Apesar de nascidos do mesmo pai e da mesma mãe, criados pelo mesmo mundo, recebidos pelos mesmos amigos, somos por demais diferentes, e não podemos mais viver de tal forma. Suas ânsias e desejos são grandes demais para o meu peito. Ele é pequeno, e está recheado pelas dores que colecionamos ao longo dos anos.

E mais ainda, as e-x-p-e-c-t-a-t-i-v-a-s. Nunca estaremos à altura das expectativas que criamos para nós dois, e muito menos das que criaram para você. Você sempre encorajou em todos as malditas expectativas, mesmo quando eu sabia que nunca poderíamos cumpri-las. Talvez seu papel fosse esse, fazer-me sofrer ainda mais.

Lembra quando éramos crianças? Você era engraçado, esperto e alegre. Você corria mais rápido que todos os nossos amigos, e era campeão de natação. Tinham certeza que seriamos um adulto feliz e realizado. Culpa sua.

Mas não mais. Estou cansado demais para carregar-nos nas costas. Você, ironicamente, não tem pernas. Estou cansado, sozinho e morrendo de medo. Não sou forte e corajoso como você e estou de saco cheio dessa sua vontade de parecer sempre invencível. Você é patético, e todos sabem disso. Você consumiu toda a força dos meus braços com suas inúteis tentativas de seguir vivendo. Você testou os limites da minha paciência com seus infinitos jogos de retórica. Você me escondeu, quando o que eu mais queria era que me vissem.

Então, leitor, diga adeus. Vou levá-lo comigo pela ultima vez, e dessa vez não vamos voltar.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Recuse imitações

domingo, 27 de janeiro de 2008

A infinita solidão de uma vela apagada.


Ou o escuro desespero de uma alma desperta.

É tão escuro que você às vezes se perde. É denso, muito denso. A angustia das coisas incompletas toma conta do peito, deixando espaço nenhum para o ar, e a garganta arranha como se houvesse engolido um pedaço do deserto. A coleção de livros na parede, caoticamente organizada, já não trás mais o interesse que deveria trazer, e você não sabe bem o que fazer com eles. Seus discos também não trazem mais nenhum conforto ou alegria.

Resolve conta-los. Se forem pares - você pensa - tudo ficará bem. Se forem ímpares você vai se sentar e chorar. São pares, e você resolve contar de novo.

Você pensa que deveria acender a luz, ler um livro, ouvir um disco, mas não é nada disso que você quer fazer. Não quer ouvir dramas fictícios de sofredores que não existem. Eisenstein. Você vê o nome na capa de um livro e pensa que queria chamar-se Eisenstein. Queria chamar-se qualquer coisa que não fosse seu nome, queria viver uma vida que não fosse a sua.

Não. Sua vida não deixa. Como um monstro dantesco devora uma a uma todas as sua esperanças, e arranca a dentadas os pensamentos felizes. Você espera. Talvez quando terminar de ser digerido uma certa resignação confortável tome conta de você, e um sono profundo te faça ir para longe desse lugar denso e escuro. Mas infelizmente você insiste e persiste, e por tempo demais sufoca a voz que te diz para desistir.

Você era a criança que roubava o sutiã das meninas na aula de natação, para depois joga-los na piscina e ficar rindo sozinho. Pulava o muro da construção só para fugir dos porteiros, e mentia para sua mãe dizendo que havia se machucado andando de bicicleta. Essa criança não se contenta com pouco. Não quer sucumbir e entender que nada vai ficar bem. Não aquela criança que ria das moças de sutiã molhado.

De olhos fechados você se sente melhor. Fica pensando se está vendo as costas das pálpebras ou se simplesmente não está vendo nada. Tenta se lembrar das aulas de biologia onde ensinavam coisas sobre os olhos, e se lembra que achou que os poetas e os biólogos falam mais sobre eles do que há neles para se falar. Sua alma não tem janelas, só paredes sufocantes e um vazio que da medo.

Talvez se você ficar assim, de olhos fechados, alguém venha te acordar com um beijo dizendo que vai ficar tudo bem, e que esse cheiro bom que está vindo da cozinha é o café da manhã. Então vocês se sentarão à mesa, comerão frutas e beberão café fresco, e a manhã vai passar rapidamente enquanto vocês conversam sorrindo sobre as mais deliciosas amenidades, e sobre como serão felizes para sempre.

No almoço decidirão o nome do filho que um dia vão ter. Vai ser algo simples, como Pedro ou João. Você vai pensar que nunca tinha reparado que essas paredes brancas são bonitas e calmas. Vão rir do cachorro que sempre se esconde debaixo do sofá, assistir um desenho qualquer na TV e confessar que estão apaixonados um pelo outro.

A tarde, quando as nuvens deixarem o sol se abrir e o calor apertar, vocês irão para a piscina, e a água vai refletir toda a felicidade dos sonhos realizados, e você vai contar sobre aquela vez em que jogou o sutiã das meninas na água, só para vê-las indo embora com a camisa molhada na altura dos peitos, e como nesse mesmo dia você se cortou ao pular o muro de uma construção, e teve que mentir para sua mãe para que ela não descobrisse.

A noite será agradável. Discutirão sobre um livro que está na sua prateleira, ouvindo o seu disco preferido, e decidirão que devem pedir comida pelo telefone. Vão ver o sol que ficou guardado no rosto um do outro, e vão rir mesmo sabendo que isso não tem graça nenhuma. Vão comer e ter sono. Se abraçar e dormir

Mas você abre os olhos, e alguém não virá. Talvez se você tivesse ficado de olhos fechados. Com eles abertos alguém nunca vem. Você está sozinho, já faz tempo que está sozinho, e amanhã vai ser um dia como outro qualquer.

A culpa é dos discos. Eles são pares, e não te dão desculpa para chorar.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Conversa ao telefone.

- Alô?
- Meu filho - voz grave e profunda do outro lado da linha - sou eu!
- Pai? O senhor está rouco?
- Não, sou eu, O Todo Poderoso!
- Erm... Hum... Bom dia, senhor Poderoso (achei que devia trata-lo pelo sobrenome)
- Preciso lhe fazer uma pergunta, meu filho.
- Engraçado, pensei que se o senhor existisse teria todas as respostas.
- Deixa de ser engraçadinho.
- Ok, ok... Pode perguntar.
- O que é que tem na Obra hoje?
- Ih, nem sei... Da uma olhada no site.
- Hum... E qual o endereço?
- Anota aí: é dabliu dabliu dabliu ponto aobra ponto com.
- Certo, certo...
- Mas e aí, como vão as coisas?
- Tudo certo.
- Então ta. Um abraço.
- Bernardo?
- Sim?
- Pra todos os efeitos, caso te perguntem, eu não existo, ok?
- Bom, se você insiste.
- Boa noite.
- Boa noite.

E essa foi uma das dez ligações de longa distância mais bizarras que eu já recebi.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Aleluia

Existem ainda algumas pessoas largadas no canto direito da sua cabeça, mas aos poucos elas também se apagam e vão para aquele lugar que se reserva às coisas em que não se quer pensar.

Aleluia.

As luzes deixam a noite com uma cor estranha, um amarelo pálido e opaco, e aqueles bichinhos que no verão se aglomeram em volta dos postes criam sombras que dançam incessantemente no chão molhado de chuva. Quando se está triste é bom ver que as coisas são tão molhadas quanto os olhos.

Aleluia.

Existe um ponto de onde não se pode voltar. Nunca. Não é um estado de espírito, é uma coisa quase física que obriga o ser humano a continuar tentando, e tanto já se perdeu quando se alcança esse ponto que não faz mais muito sentido parar agora. É o herói que entra no labirinto para salvar a donzela, e mesmo depois da certeza de estar completamente perdido sabe que não adianta voltar, e segue em frente ao encontro de um minotauro qualquer que irá devorá-lo. Não anda de cabeça erguida e peito estufado, segue olhando para baixo e com medo das sombras, pensando a todo instante que deixou para trás qualquer vestígio de esperança.

Aleluia.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

uma lista de listas

Tinha um bom tempo que eu não fazia lista de melhores discos do ano, principalmente porque tinha muito tempo que eu não ouvia suficientes discos lançados há menos de um ano para completar dez que eu gostasse. Mas eu nunca parei de fazer listas. De fato, esse é um vício que eu tenho, há muito, muito tempo. E não me venha com essa de que peguei a mania depois de "Alta Fidelidade" porque eu já fazia esse tipo de coisa pelo menos desde os oito, nove anos.

Lá pra 91, 92, quando começou a passar MTV em Porto Alegre, eu comecei a acompanhar muito o Disk e o Top 20 Brasil... Logo pensei que seria mais legal se eu fizesse minhas próprias paradas de sucesso, já que os dos outros sempre tinham umas porcarias no meio. Lembro de fazer um prístino Top 30 Clipes numa máquina de escrever da minha mãe, basicamente preenchido por Red Hot Chili Peppers, Nirvana e Pearl Jam. Depois isso virou um hábito e eu fui fazendo a coisa sistematicamente. Acho que entre 94 e 97, mais ou menos eu fiz um Top 20 a cada dia (sim, eu tinha muito tempo livre) e depois no fim do mês eu calculava os pontos e via quem foi melhor nos últimos 30 dias. Depois eu fazia isso no ano e formava um Top 200 que eu comparava com o do meu primo que também fazia o mesmo. Isso preenchia cadernos e mais cadernos, que infelizmente eu joguei fora quando fiz uns 15 anos, morrendo de vergonha que aquilo pudesse queimar meu filme. Adolescente é muito idiota mesmo, seria tão legal ter essas coisas até hoje...

Mas bem, eu parei de gostar tanto assim de clipes, mas não de listas, e fui fazendo de outras coisas. Claro que não dá mais pra fazer a coisa diária como antigamente, mas o hábito se mantém ativo. Tenho uma pasta no meu PC chamada "listas" onde há uma relação de todos os livros de literatura que eu já li na minha vida (fora os infantis, que são meio difíceis de contabilizar); há paradas de discos, livros, músicas e quadrinhos favoritos em diferentes épocas; e uns dois anos atrás eu e o Theo resolvemos fazer uma lista com os 10 melhores filmes de cada ano (no meu, é só a partir de 1956 que juntam 10 ou mais a cada ano, mas eu estou trabalhando pra mudar isso). Fora os regulamentares bancos de dados com meus livros, xeroxes, CDs, vinis, DivXs, que são menos pra divertir e mais pra organizar minhas coleções. E as malditas listas do tipo "tenho que...": filmes que tenho que ver, livros que tenho que ler... Essas que sempre aumentam, aumentam, listas infinitas, que me dão um pouco de angústia, um sentimento de que estou sempre um passo atrás do que deveria estar... Mas dão muito prazer quando apago uma linha, após baixar mais uma pérola no KG ou achar uma raridade num sebo.

Como amostra, segue minha lista de filmes de 1979, um bom ano:

1 – "Apocalypse Now", Francis Ford Coppola, EUA

2 – "L'Hypothèse du Tableau Volé (A Hipótese do Quadro Roubado)", Raoul Ruiz, Fra

3 – "Die Dritte Generation (A Terceira Geração)", R. W. Fassbinder, Ale

4 - "Die Blechtrommel (O Tambor)", Volker Schlöndorff, Ale

5 – "Stalker", Andrei Tarkovsky, Rus

6 – "Alien", Riddley Scott, EUA

7 – "Fukushû suruwa wareniari (Minha Vingança)", Shohei Imamura, Jap

8 – "Life of Brian (A Vida de Brian)", Terry Jones, UK

9 – "Zombi 2", Lucio Fulci, Ita

10 – "Manhattan", Woody Allen, EUA

Hors-concours:

"Warriors", Walter Hill, EUA

sábado, 12 de janeiro de 2008

Melhores de 2007

Esse negócio de fazer lista é muito viciante. Cada novo disco que escutava me levava para uns outros 5 e assim por diante. Poderia ficar o ano inteiro ouvindo discos de 2007 possivelmente bons e isso seria um saco, já que a esmagadora maioria não corresponderia a essa expectativa. Então fiz um recorte razoável de uns 70 discos para ouvir (alguns só até a metade, é vero) pra que assim eu pudesse voltar a viver algum dia. Não ouvi nada ou quase nada de Rap (só os mais clichês), jazz, pop descarado, folk, indie-pop e fofuras em geral. Não quer dizer que não ouvi e não gostei: só não ouvi e ponto. Ouvi atentamente esses lances supermodernos de dubstep e techno minimal mas, apesar de perceber que há até uma galerinha criativa nesses lances, eu não consigo ouvir um disco inteiro. E eu sei que aqui ninguém liga pra isso.

Como me senti meio imbecil fazendo uma lista destas, adotei o estilo engraçadinho-pop-superficial-por-demais-assertivo das críticas musicais ruins. Não estou muito afim de pensar, desculpem. E nesse sentido também não coloquei uma ordem nos dez melhores. Acreditem que eu achei estes dez igualmente legais.

Não fiz oficina de blog então não sei colocar as capinhas, foi mal aí.

Hors Concours

Miles Davis - The Complete On The Corner Sessions

Se você nunca ouviu este disco, então baixe e ouça agora a versão simples. Acho que o produtor escolheu as melhores músicas e melhores takes. Mas agora que você ouviu e foi abençoado, irá concordar comigo: não há nada com mais groove, ginga, molejo e malevoLência na história da música ocidental do que On The Corner. Então será necessário ouvir essa caixa de 6 CDs com as gravações do disco pra sentir o DRAMA em toda a sua completude. Sim, são quase 7 horas de música. Mas nada é menos que muito foda, eu garanto demais. Os melhores músicos da época fumando muita droga pra fazer música pra fumar droga pra fazer música e no meio disso aí saindo uma espécie de funk-jazz que não é bem só isso. E se o fusion matou o jazz então ele morreu feliz só por causa desse disco.

Harmonia - Live 1974

Formado por integrantes do Neu! e do Cluster, o Harmonia foi uma pouco conhecida superbanda vaca-preta (unia o melhor das duas bandas anteriores sem porém superá-las). Este show de 74, só lançado em disco este ano, pode ser considerado como o terceiro grande disco da banda kraut. Recomendado para maconheiros alemães da década de 70 ou para quem já cansou de ouvir os dois primeiros discos e sentiu um gostinho de quero mais.

Os Outros 8

Acid Mothers Temple & the Melting Paraiso U.F.O. - Crystal Rainbow Pyramid Under the Stars
Piração hippie da melhor qualidade. Esta moçadinha esperta tem feito o que há de mais interessante em termos de rock paulera nesses anos 00 e tem pouca gente sabendo. Então ta avisado aí.

Christian Fennesz/Ryiichi Sakamoto – Cendre
O pior disco do Fennesz é melhor que quase tudo lançado esse ano.

Electrelane - No Shouts, No Calls
O Guilty Pleasure da lista. Um disco um tanto desigual, com experimentações bacaninhas, clichês indies e todo aquele jeitinho Stereolab de ser.

The Focus Group - We are all Pan's People
Colagem sonora cubista que te leva para aquele período da manhã em que você acha que está sonhando mas não se importa muito com isso - só quer voltar a dormir.

Grinderman – Grinderman
Pra quem como eu gosta mais da fase Birthday Party do Nick Cave esse disco é o melhor dele. E quem não acha isso deveria achar porque está errado. E se mesmo assim quiser insistir no erro por livre e espontânea vontade, então deve concordar ao menos que é uma das melhores coisas que ele faz em muito tempo, parecendo ou não com o Birthday Party.

LCD Soundsystem - Sound of Silver
Na primeira vez que ouvi não gostei muito e o show não me ajudou a gostar mais. Mas na reouvida esse Sound of Silver bateu legal. O LCD veio pra ficar, falem o que quiser.

Lichens – Omns
Climão bom esse Lichens. Muita gente indo na onda do drone/ambient, mas poucos conseguindo fazer direito sem ser chato, tipo isso aqui.

OM – Pilgrimage
O pior disco do OM é melhor que quase tudo lançado esse ano.

Robert Wyatt – Comicopera
O bom velhinho não tem errado nos últimos anos e com Brian Eno, Phil Manzanera e outros menos cotados como banda de apoio não tinha como sair do script. Comicopera é disco de velho com muito bom gosto e um pouquinho de mudernidade, mas não é tipo MPB não, fiquem tranqüilos. E se você se emocionou e super se identificou com as letras de Wyatt sobre a Guerra das Malvinas, o assassinato das baleias e a queda da bolsa de Tóquio, então vai curtir demais as músicas quase-políticas desse disco aqui. A voz do homem está triste como sempre e dá pra perceber que ele ta falando sério, né brincadeira não. Agora, achei um pouquinho longo demais o disco, e aquela musiquinha em homenagem ao Che Guevara que fecha o disco é palha demais, estamos combinados.


Não achei uns 5 discos que pareciam promissores. Fica pro ano que vem. Gostei também de outros, mas acho que não voltarei a ouvi-los ano que vem. Ou neste ano mesmo... São estes:

Aesop Rock - None Shall Pass
Boris/Michio Kurihara - Rainbow
Dinosaur Jr –Beyond
Kemialliset Ystavat – Alkuharka
Laub – Deinetwegen
Lou Reed/Zeitkratzer - Metal Machine Music Live
Mouthus - Saw a Halo
Panda Bear - Person Pitch
Yellow Swans - At All Ends

Mais uma do homem



É, Poeira... Eu sempre soube que teu problema era puta e pó..

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Música para a cabeça.


Recentemente descobri que uma banda que eu gosto muito, o Chicago Underground Trio, é muito pouco conhecida aqui no Brasil.

Começou em 1998, e então se chamava Chicago Undergrond Orchestra. Rob Mazurek, Jeff Parker, Chris Lopes, Sarah Smith e Chad Taylor faziam parte da banda. Não durou muito, e algum tempo depois dois dos ex-integrantes da "orquestra", Chad Taylor e Rob Mazurek montaram, ainda em 1998, o Chicago Underground Duo. Foi só em 1999, com a entrada de um rapaz chamado Noel Kuppersmith, que a banda de fato se transformou em um trio e adotou o nome atual.

Acho que é muito pouco pra definir o som da banda dizer que eles fazem um jazz conteporâneo e experimental. "Avant Garde Jazz Band", como costumo ler por aí não é nem de perto o bastante pra descrever o que os caras fazem.

Os fundadores e "band leaders", apesar de muito novos, tem um curriculo bem vasto e respeitável, em especial o baterista / percussionista Chad Taylor. Além de ter começado a tocar em clubes de Chicago com 15 anos de idade, ele já tocou ao lado de grandes figuras como Leon Parker e Mark Turner, e fez parte da banda Tortoise.

Na minha opinião a melhor característica do trio é a facilidade com que vão e voltam em sessões de improviso. Chega a ser difícil saber quando é que eles estão tocando pedaços previamente escritos de uma música e quando começam a improvisar.

Também vale ressaltar que nunca ouvi post-rock, jazz e música eletrônica misturados com tanta maestria.

Os discos lançados pela banda são: Possible Cube, de 1999, Flamethrower, de 2000, o Sion de 2004 e o ultimo, de 2007, Chronicle.

Sion foi o disco que me chamou atenção para a banda. Tem um conteudo político muito forte, coisa rara de se ver em bandas de Jazz. O disco é "dedicado" a todos que morreram "nas mãos das guerras imperialistas americanas".



Chronicle, o ultimo disco, é a obra prima dos caras. O disco é maravilhoso do começo ao fim. Foi provavelmente a coisa que mais escutei em 2007, e sinceramente acho que por um bom tempo vai ser top na minha lista de discos de jazz.



Então é isso. Baixem o disco, ouçam a banda. E aviso de antemão que é uma banda a se escutar com a cabeça. Não deve ser difícil demais de achar na internet, mas caso não encontrem, eu tenho os originais, e posso coloca-los na net eu mesmo. É só me pedir.