segunda-feira, 28 de abril de 2008

Minha mulher ta usando cocaina

Olha, eu começo isso daqui pedindo desculpas. Assim, por não me apresentar direito e nem nada. É que um amigo meu me mandou uma mensagem outro dia dizendo que se eu ainda tivesse alguma coisa aqui dentro, pra eu colocar pra fora aqui no blog....

E foi coincidência das grandes porque isso aconteceu justo agora. Sou muito superticioso e resolvi entender que a oportunidade era exatamente o que eu precisava. Porque supertição é isso mesmo: você resolve acreditar em alguma coisa e acredita.

Bem, esse é um post/desabafo na verdade. Aconteceu, e eu preciso conversar com alguém. Estranhamente eu escolhi o método menos reservado possível: a internet.

Foi na semana passada. Eu tinha chegado em casa bem mais cedo, logo depois de passar no médico (tenho uma rinite que simplesmente não me larga). Abri a porta, fui tirando o sapato - um calor do inferno em São Paulo. Minha mulher geralmente chega mais tarde que eu (na verdade ela é minha namorada e mora comigo... nao deixa de ser vida de casado...).

Como eu disse, como ela costuma chegar mais cedo que eu, eu entrei achando que ia ter longas horas de tranquilidade até ela chegar. Não me leve a mal... Eu adoro a menina. É que depois que a gente passa a morar junto, a gente valoriza os momentos "de sozinho".

Eu abro a porta e escuto a música que vem do meu quarto. Estranho... Uma música suave de alguma dessas mulheres que cantam bem e eu não sei o nome. "Dont try to fool me in the rain..." Caminho até o quarto, em silencio. E de uma vez eu vejo a cena: ela dentro do quarto, sentada na escrivaninha e olhando pro teto. Eu digo olá e ela não responde.

Então eu vejo o resto do que eu assumi ser cocaína na sua frente. Acho que eu poderia ter tido um milhão de reações diferentes. Provavelmente a melhor teria sido conversar. Escolhi virar as costas e sair. Ainda de meias sai do meu prédio e caminhei em direção à Paulista.

Sempre fui careta pra essas coisas. Ela também. E aquilo simplesmente não encaixava. Por que? Era pelo barato ou aconteceu alguma coisa? Nunca experimentei a coisa e por isso tenho dificuldade de entender.

"Dont try to fool me no...." Eu sentado perto do masp, de camisa, calça e descalço. E eu só conseguia pensar na música. Passei 2 horas assim. Até cansar e ir pra casa (pra onde mais??). Chego em casa e estava vazia. Meia hora depois (ou mais, ou menos) chega minha mulher.

Ganho um beijo dela e ouço que está cansada. Assistimos metade de um seriado da TV e ela levanta dizendo que vai lavar o rosto e ir dormir. Termino de assistir o tal do seriado e fico zapeando pra achar alguma outra coisa pra assistir. Cinco minuto depois eu levanto, um copo de leite e vou dormir.

E a tal da música ainda na cabeça...

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Todo mundo morre cedo em Ribeiro.

Capítulo 1:

Me lembro daquele dia como se fosse ontem, e acho que vou me lembrar pelo resto dos meus dias. Um cara não esquece uma coisa como aquela.

Já era escuro. O relógio ainda ia lá pelas 18:00, mas o dia em Ribeiro acaba mais cedo do que nas cidades normais. Há quem diga que a culpa seja da expessa camada de fumaça que assombra a cidade, mas eu sei que a verdade é outra. Ratos são animais noturnos, e Ribeiro é uma cidade de ratos. É por isso que escurece tão cedo.

Luz apagada. Não precisei acender. Era de se imaginar que em uma cidade como essa um detetive particular não precisasse se preocupar em conseguir clientes mas, infelizmente, não é verdade. Pelo menos não para mim. No momento a única luz que se via aqui dentro vinha do letreiro de neon da pizzaria ao lado que, segundo sim segundo não, entrava pela janela tingindo de vermelho a parede mofada da sala.

Havia voltado de uma curta caminhada, e ainda sentia no rosto o frio da rua. Costume. Todo dia por volta das cinco horas abandono meu amigo Jack Daniels e saio para dar uma volta com a minha garota, uma bela senhora chamada Desert Eagle .50, que carrego sempre no coldre, fazendo volume perto do peito.

Era um final de tarde comum, de um dia comum. Como em qualquer outro dia da minha vida pensei que deveria me mudar, procurar algum lugar mais ensolarado. Quem estou enganando, eu nunca vou me mudar dessa cidade, e eu nem gosto de sol. Essa cidade deixa a gente ainda mais sozinho e melancólico. Os muros gastos e sem tinta, os prédios baixos, a rua molhada, os poucos postes de luz aqui e acolá com suas luzes tristes e amareladas, a fumaça, a maldita fumaça. A violência do centro, a corrupção dos suburbios, as prostitutas paradas nas portas das igrejas. Em todo lugar do mundo é ao contrário, mas por aqui são as igrejas que se transformam em puteiros, ou naqueles cinemas pornográficos onde os veados vão para transar com desconhecidos. Tudo isso e uma chuva que nunca pára deixam a gente melancólico como o inferno.

Ribeiro é mais uma dessas cidades que não deram certo. Do gigantesco parque industrial só restaram as lembranças, a fumaça, alguns ricaços que fizeram fortuna roubando de suas próprias empresas, o chumbo na água e uma ou outra criança deformada.

O centro antigo já foi um bairro próspero e bonito. Hoje em dia abriga prostitutas, traficantes, cafetões e todo dia de escória que se pode imaginar, alem de um ou outro babaca como eu. A verdade é que eu gosto dessa cidade, e não saberia viver em outro lugar. Não saberia viver em um lugar onde não me obrigam a viver sozinho.

Havia chegado de uma pequena caminhada. Um passeio diário que faço para me lembrar que tipo de cidade é Ribeiro, e estava prestes a dar o dia por encerrado. As luzes estavam apagadas, não via motivo para acendê-las, e o letreiro da pizzaria do lado não parava de piscar. Alguém precisa consertar essa merda.

Já começava a vencer a inércia criada por mais um dia ocioso e me levantar do sofá de couro rasgado, quando um ouvi batidas na porta, que abriu-se logo em seguida, antes mesmo que eu pudesse indagar quem diabos resolvera aparecer. Era uma mulher.

Era alta e loira, e como a maioria das mulheres altas e loiras tinha pernas incríveis. O decote mostrava uma porção considerável dos seios, e o vestido vermelho não escondia muito bem o resto do corpo. O cabelo, tão falso quanto as pérolas em seu pescoço, havia sido pintado ainda há pouco tempo, e não fosse o enorme esforço que fazia para parecer elegante passaria bem por uma menina criada na zona sul. Fumava uma piteira branca, feita de algum material que tenta parecer marfim, e os olhos azuis eram quase bonitos o bastante para tirar a atenção daquelas pernas. Quase. O sapato era preto e alto, e sou suficientemente esperto para perceber que ela não estava acostumada a andar sobre eles. A bolsa, uma falsificação bem feita de alguma marca importante, balançava demais em sua mão sem fazer barulho algum. Estava vazia. A luz vermelha da pizzaria ao lado deixou naquele rosto perfeito uma marca de malícia que não foi embora quando acendi a luz. Ela se sentou, cruzou suas lindas pernas, e começou a falar.

Resposta aberta aos leitores que não tiveram seus e mails respondidos.

Antes de mais nada, obrigado por estarem lendo essas bobagens que a gente escreve. Porra, muito provavelmente, se eu não fosse um dos organizadores dessa joça aqui, nem eu ia perder tanto tempo assim lendo essas coisas. E olha que eu sou o tipo de cara que lê qualquer coisa, sem muito espírito crítico.

Tenho recebido alguns emails recentemente, com algumas perguntas recorrentes, então acho mais fácil responder pra todo mundo, de uma vez só, aqui no blog.

Em primeiro lugar, não, o Corona não acabou, e nem está acabando. Atualmente a maioria dos organizadores anda muito ocupada com as coisas da vida de verdade, e alguns outros de fato encheram o saco do Corona. Particularmente, eu que uso de textos pra aliviar minha insônia, continuo escrevendo algumas coisinhas, mas tenho evitado postar todas elas aqui pra não dar a impressão que o Corona virou um blog do Bernardo. A idéia não é e nunca foi essa, o Corona foi criado por mim e pelo Daniel pra ser uma tentativa de escrever coisas desconexas e aleatórias em conjunto, com os nossos amigos, e assim ele vai continuar.

Infelizmente a gente não tem o interesse em aceitar que desconhecidos escrevam com a gente. A idéia é sim muito boa, e gosto muito de pensar em blogs com muitos autores de muitos lugares diferentes, mas novamente, não foi pra isso que o Corona foi criado. É um depósito de textos de um grupo de amigos, só isso. Os ultimos dois textos que recebi, sinceramente, são melhores do que tudo que eu já li no Corona, mas me desculpem, não serão publicados, pelo motivo que acabei de expor.

Amigos novos serão convidados a escrever, em primeiro lugar pra jogar um pouco de sangue novo nisso aqui, e em segundo pra substituir os que de fato já encheram o saco e largaram essa bobagem desse blog.

Novamente, a maioria dos colaboradores anda completamente sem tempo. Então eu vou começar essa semana a públicar os capítulos de um texto longo com o qual eu ando namorando. Mas isso não quer dizer, de forma alguma, que o Corona irá se tornar um blog meu, ou dirigido por mim, ou nada do gênero. O blog é de todos aqueles que vocês vêem o nominho na seção "colaboradores", e por aqui não existe diretoria, conselho editorial, redator, nem nada do gênero. Todo mundo aqui é anarquista.

Novamente, obrigado por continuarem lendo, e me desculpem por não responder pessoalmente os e mails.

[]s

b.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Olhos acesos de uma mente que dorme

Ou "Confissões de um eterno insone."

"Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir. "

O segredo de tudo é ter precisamente a quantidade de tempo necessária. Nem mais, nem menos. Acredite, leitor, tempo demais é problema na certa.

Quem não dorme tem sempre tempo demais, e na opinião desse autor que detém considerável experiência no assunto, esse é o maior problema da insônia.

Quem não dorme tem tempo de pensar em todas as mazelas da vida, tempo de calcular com tremenda exatidão todas as conseqüências futuras dos maus atos do presente, tempo de avaliar com presteza o tamanho dos buracos que cava, tempo de descolorir e enxergar em preto e branco aquele filme que costumamos chamar de "vida".

À meia noite a casa dorme. Dormem também os amigos e toda possibilidade de convívio social. Os programadores de rádio e televisão não se importam com com os insones, não praticam a gentileza de agradar-lhes com boas opções de entretenimento.

Os livros, passadas algumas horas, tornam-se sempre chatos e enjoativos, assim como os discos, pois numa certa hora qualquer barulho irrita profundamente. Em um determinado momento tudo o que temos somos nós mesmos, e isso geralmente não é bom. Confinados entre as paredes de um quarto, o próprio ar que respiramos parece cada vez mais denso, e é exatamente nessa hora que os fantasmas do passado vêm cobrar dívidas antigas, muitas vezes esquecidas.

Acredito, inclusive, que se gostássemos de nossas próprias companias não teríamos insônia.

"Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!"

Nas primeiras vinte e quatro horas é um pouco mais fácil. O cansaço, o desânimo e o desespero ainda são razoavelmente suportáveis. Depois é que começa a ficar um tanto quanto perigoso.

A luz se transforma em um milhão de pequenas agulhas, e parece que não furam apenas os olhos. Furam também os ouvidos, as bocas, as mãos, as pernas e os braços. As cores dão lugar às sombras e pouco a pouco as formas se tornam todas borradas.

Não se sabe bem ao certo quando é que a lucidez vai embora. É comum dizer que quem está ficando louco não percebe o que está acontecendo, ao contrário, muitas vezes parece que nunca estivemos tão lúcidos, e que tudo agora faz muito mais sentido do que fazia antes. Engano, sempre. Nunca se pensa direito quando não se consegue dormir.

Os olhos estão abertos mas não estamos acordados. Misture o terror do pesadelo com a frieza da realidade e verá o que digo. O ar parece querer engolir aquele que o respira, como se quisesse se vingar por todo o tempo que nos utilizamos dele sem dar-lhe o devido valor.

Todo insone tem mania de dar ânimo ao inanimado. Tem mania também de começar centenas de textos sem nunca acaba-los.

"A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas não durmo."

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Arthur

Ou "O Eterno Eufemismo do Livre Sonhador".


Seu eu lírico tem nome? O meu tem, se chama Arthur. Arthur é uma mistura pretensiosa de um leitor de Schopenhauer com um personagem qualquer de um filme noir.

Provavelmente não trabalha. Passa a manhã inteira dormindo e almoça sozinho em um restaurante com pano de mesa xadrez. De tarde vai ao cinema assistir alguma coisa em preto e branco, depois vai para casa e fica lendo livros aleatoriamente selecionados até que fique tarde o bastante para andar pela rua sem ser incomodado pelo barulho dos carros e das pessoas que moram na cidade em que vive. As noites nessa cidade são sempre muito frias e um pouco molhadas, a iluminação também não é das melhores, apenas umas lâmpadas amarelas aqui e acolá. É claro que os muros das casas e dos prédios são um pouco descascados, deixando a mostra alguns tijolos. Existem alguns bares onde Arthur as vezes pára para beber. A cidade escura, fria e molhada se chama Ribeiro.

Ribeiro é a capital de algum grande estado, e possui alguns milhões de habitantes. Nenhum deles parece despertar qualquer tipo de interesse em Arthur, que fala muito pouco, mas fuma compulsivamente. Certa vez resolveu tomar nota de tudo que falasse ao longo de um dia comum, e não foi muito. “O de sempre, por favor”, “uma entrada para o filme das três”, “dois maços, por favor” e “mais uma dose” foram as únicas coisas que anotou em seu caderno. Pensou que se essas fossem as únicas coisas que soubesse dizer, sua vida não seria muito diferente, e chegou a acreditar que talvez fosse, de fato, tudo que soubesse falar.

As paredes do quarto de Arthur são brancas, e decoradas com estantes de livros. Uma mesa redonda, no centro da sala, guarda sempre os cigarros, as chaves, e os fósforos de Arthur. No chão, um tapete com desenhos sem sentido, e no canto um sofá de couro desbotado.

Arthur escreve poemas que não rimam e contos com personagens que suicidam no final.

Não teve infância, já nasceu com trinta e poucos anos, e desde então nunca fez aniversário. Continua com os mesmos trinta e poucos anos. Se formou, antes de nascer, em alguma universidade que não tem muito a ver com a vida que leva. Administração, ou algo do gênero. Ou talvez Farmácia. Arthur não se lembra exatamente se já teve alguém na sua vida. Mãe, pai, namorada, amigos, mas sabe que já perdeu algumas pessoas, e se lembra de não ter chorado em nenhum dos velórios. Sabe também que ninguém irá ao seu. Ele mesmo não iria se não fosse obviamente obrigado a tanto.

Oh, a liberdade. A insuportável liberdade de Arthur.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Esquizofrenia em quatro atos.

O autor não sabe por onde começar esse texto. Na verdade nunca sabe por onde começar coisa alguma, especialmente aquelas que falam sobre algo realmente importante, e não são simples exercícios literários sobre sentimentos que não sente e verdades em que não acredita.

Ao contrário do que dizem, o pior tipo de angústia não é aquela que chamamos de “existencial”, sem nenhum motivo aparente além da própria dor da existência. O pior tipo de angústia é aquela que vem de uma dúvida muito clara e real que, na maioria das vezes, é criada por acreditarmos em algo que sabemos não ser verdade, ou preferirmos crer que são verdades as mentiras que inventamos.

Nesse ponto qualquer eventual leitor já deve ter percebido que o autor de fato não sabia por onde começar esse texto, e talvez nunca mesmo devesse ter começado a escrevê-lo. Estejam advertidos, portanto, que ele ainda não sabe exatamente como começa-lo. Então sintam-se livres para pularem um ou dois parágrafos, e esperemos que no ponto em que retomarem o texto, caso decidam faze-lo, ele já tenha se decidido a cerca de como começa-lo, e tenha uma idéia mais precisa do que é a que ele se destina.

Aos leitores de mais afinco (ou ainda, mais tempo livre), decididos a continuar lendo na integra esse texto, o narrador promete ser o mais breve possível, apesar de que já agora devem considerá-lo um escritor muito prolixo. Além de muito pouco talentoso, vez que já em meados do quarto parágrafo o texto ainda nem mesmo começou. Mais uma falha óbvia que devemos apontar é a constante repetição – a palavra “texto”, por exemplo, já foi utilizada sete vezes até agora – mas é que nem sempre podem se encontrar sinônimos, e a repetição as vezes se faz necessária. Palavras, como pessoas, vez em quando são ímpares e não aceitam qualquer tipo de substituição. Devem ter percebido também, caso tenham prestado atenção ao primeiro e ao segundo parágrafo, que o texto é absolutamente pessoal, e provavelmente discorrerá sobre algum sentimento que o autor pretende sentir no momento.

Acredito ainda que o texto não proporcione prazer estético de nenhuma sorte ao mais exigente dos leitores. Ora, se nem mesmo quando se preocupa em escrever de maneira bonita e agradável, com tiradas sagazes e frases inteligentes, o autor consegue redigir algo decente, o que dirão desse texto que escreve simplesmente como desabafo, que nada mais pretende além de causar conforto em uma hora de muitos segredos angustiantes?

O pior tipo de angústia é não ser correspondido. Desculpem a mudança tão brusca, mas é que há dois parágrafos atrás foi prometido que agora já teria tido início o texto propriamente dito, portanto, deixemos de lado as elucubrações em que nos perdemos nos parágrafos anteriores, e vamos direto ao ponto em que precisamos chegar. Repito, então, o pior tipo de angústia é não ser correspondido. A vida se faz de projeções, de um eterno criar e atender expectativas. Quando as expectativas que criamos não são atendidas, corremos em inventar desculpas para amenizar nossa frustração, e é daí que nasce a maldita dúvida. Somos idiotas o bastante para querer acreditar nas mentiras que criamos, mas não o bastante para ignorar completamente a verdade.

O tipo de mentira mais comum nesses casos, ironicamente, é o que diz exatamente o contrário. Diz que somos paranóicos, e que as verdades que nos saltam aos olhos são frutos dessa imaginação distorcida que possuímos, enquanto na verdade sabemos que fruto da imaginação é a esperança que insistimos em manter viva a todo custo. Aí reside a fonte de todo o mal. Nesse ponto deixamos de saber exatamente se estamos inventando as verdades ou se elas sempre estiveram ali, mas as mentiras que criamos nos impediram de percebê-las.

Vocês, leitores, devem estar se perguntando por que diabos estão conseguindo entender esse texto. Ora, ele simplesmente não faz sentido algum, e ainda assim vocês o entendem. Ele não se explica, não tem começo, e ele nem mesmo sintetiza muito bem o seu próprio motivo. Mas a resposta para essa pergunta é muito simples: Não existem leitores. Existe apenas um leitor. Esse texto está sendo redigido para uma única pessoa, então talvez seja hora de começar a trata-lo por “você”, e deixar de lado a pretensa impessoalidade da palavra leitores. Você, leitor, é o tema desse texto.

É claro que você é suficientemente esperto para saber que escritores nem sempre dizem a verdade sobre aquilo que sentem, mas dessa vez você sabe que é diferente, que existe alguma verdade naquilo que lê. Vamos então abandonar outra terminologia impessoal: a partir de agora os termos “autor”, “escritor” e “narrador” serão substituídos pelo pronome “eu”, pronome esse que estará se referindo a mim mesmo, este que por hora toma vosso tempo. Assim sendo resolvemos, em parte, o problema da repetição, vez que os termos “autor’ e “leitor” também já foram exaustivamente utilizados.

Você e eu temos diferentes expectativas. Você quer demais, e eu tenho quase nada. Você é a parte do poema que olha para as estrelas enquanto eu sou a que se esfrega na lama. Aquela lama suja e molhada, que fica bem no fundo do poço. Você é alegre, forte e divertido, entende de música e fala de cinema, é cheio de amigos, tem um bom emprego, uma casa bonita, um carro e um cachorro. As pessoas gostam de você e algumas delas te admiram. Eu, por outro lado, sou o cara que fica sozinho de madrugada, que olha para o teto do quarto por horas, que vê o sol nascer na janela implorando para Deus fazê-lo dormir.

Você é insistente. Acha que o telefone não toca por que estão todos ocupados. Eu já desisti, sei que a verdade é muito mais dura que isso. O telefone não toca por que não querem falar comigo, e estou completamente sozinho.

O seu único problema sou eu. Você, infelizmente, não vive sem mim. Você nunca entendeu por que é que toda sua vida o único poema que conseguiu decorar foi

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”

Eu, por outro lado, sempre soube.

Dou-lhe a chance, portanto, de dizer adeus. Aproveite para se despedir daqueles que chama de amigo. Diga à tua mãe que tentou. Planeje sua ultima festa, beba seu ultimo copo, fume seu ultimo trago. Olhe outra vez a paisagem da janela, admire o barulho dos carros.

Sinta saudade das pessoas que perdeu, e mais ainda, daquelas que nunca teve. Pense nos lugares que não viu e de tudo aquilo que não conseguiu. Ande, dance sozinho no seu quarto e assista novamente aos filmes que te agradam.

Escute uma ultima vez a voz de quem ama, por que depois partiremos.

Aconselho, se quiser, que seja discreto. A única coisa que sempre tivemos em comum é o gosto pela discrição. Apesar de nascidos do mesmo pai e da mesma mãe, criados pelo mesmo mundo, recebidos pelos mesmos amigos, somos por demais diferentes, e não podemos mais viver de tal forma. Suas ânsias e desejos são grandes demais para o meu peito. Ele é pequeno, e está recheado pelas dores que colecionamos ao longo dos anos.

E mais ainda, as e-x-p-e-c-t-a-t-i-v-a-s. Nunca estaremos à altura das expectativas que criamos para nós dois, e muito menos das que criaram para você. Você sempre encorajou em todos as malditas expectativas, mesmo quando eu sabia que nunca poderíamos cumpri-las. Talvez seu papel fosse esse, fazer-me sofrer ainda mais.

Lembra quando éramos crianças? Você era engraçado, esperto e alegre. Você corria mais rápido que todos os nossos amigos, e era campeão de natação. Tinham certeza que seriamos um adulto feliz e realizado. Culpa sua.

Mas não mais. Estou cansado demais para carregar-nos nas costas. Você, ironicamente, não tem pernas. Estou cansado, sozinho e morrendo de medo. Não sou forte e corajoso como você e estou de saco cheio dessa sua vontade de parecer sempre invencível. Você é patético, e todos sabem disso. Você consumiu toda a força dos meus braços com suas inúteis tentativas de seguir vivendo. Você testou os limites da minha paciência com seus infinitos jogos de retórica. Você me escondeu, quando o que eu mais queria era que me vissem.

Então, leitor, diga adeus. Vou levá-lo comigo pela ultima vez, e dessa vez não vamos voltar.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Recuse imitações

domingo, 27 de janeiro de 2008

A infinita solidão de uma vela apagada.


Ou o escuro desespero de uma alma desperta.

É tão escuro que você às vezes se perde. É denso, muito denso. A angustia das coisas incompletas toma conta do peito, deixando espaço nenhum para o ar, e a garganta arranha como se houvesse engolido um pedaço do deserto. A coleção de livros na parede, caoticamente organizada, já não trás mais o interesse que deveria trazer, e você não sabe bem o que fazer com eles. Seus discos também não trazem mais nenhum conforto ou alegria.

Resolve conta-los. Se forem pares - você pensa - tudo ficará bem. Se forem ímpares você vai se sentar e chorar. São pares, e você resolve contar de novo.

Você pensa que deveria acender a luz, ler um livro, ouvir um disco, mas não é nada disso que você quer fazer. Não quer ouvir dramas fictícios de sofredores que não existem. Eisenstein. Você vê o nome na capa de um livro e pensa que queria chamar-se Eisenstein. Queria chamar-se qualquer coisa que não fosse seu nome, queria viver uma vida que não fosse a sua.

Não. Sua vida não deixa. Como um monstro dantesco devora uma a uma todas as sua esperanças, e arranca a dentadas os pensamentos felizes. Você espera. Talvez quando terminar de ser digerido uma certa resignação confortável tome conta de você, e um sono profundo te faça ir para longe desse lugar denso e escuro. Mas infelizmente você insiste e persiste, e por tempo demais sufoca a voz que te diz para desistir.

Você era a criança que roubava o sutiã das meninas na aula de natação, para depois joga-los na piscina e ficar rindo sozinho. Pulava o muro da construção só para fugir dos porteiros, e mentia para sua mãe dizendo que havia se machucado andando de bicicleta. Essa criança não se contenta com pouco. Não quer sucumbir e entender que nada vai ficar bem. Não aquela criança que ria das moças de sutiã molhado.

De olhos fechados você se sente melhor. Fica pensando se está vendo as costas das pálpebras ou se simplesmente não está vendo nada. Tenta se lembrar das aulas de biologia onde ensinavam coisas sobre os olhos, e se lembra que achou que os poetas e os biólogos falam mais sobre eles do que há neles para se falar. Sua alma não tem janelas, só paredes sufocantes e um vazio que da medo.

Talvez se você ficar assim, de olhos fechados, alguém venha te acordar com um beijo dizendo que vai ficar tudo bem, e que esse cheiro bom que está vindo da cozinha é o café da manhã. Então vocês se sentarão à mesa, comerão frutas e beberão café fresco, e a manhã vai passar rapidamente enquanto vocês conversam sorrindo sobre as mais deliciosas amenidades, e sobre como serão felizes para sempre.

No almoço decidirão o nome do filho que um dia vão ter. Vai ser algo simples, como Pedro ou João. Você vai pensar que nunca tinha reparado que essas paredes brancas são bonitas e calmas. Vão rir do cachorro que sempre se esconde debaixo do sofá, assistir um desenho qualquer na TV e confessar que estão apaixonados um pelo outro.

A tarde, quando as nuvens deixarem o sol se abrir e o calor apertar, vocês irão para a piscina, e a água vai refletir toda a felicidade dos sonhos realizados, e você vai contar sobre aquela vez em que jogou o sutiã das meninas na água, só para vê-las indo embora com a camisa molhada na altura dos peitos, e como nesse mesmo dia você se cortou ao pular o muro de uma construção, e teve que mentir para sua mãe para que ela não descobrisse.

A noite será agradável. Discutirão sobre um livro que está na sua prateleira, ouvindo o seu disco preferido, e decidirão que devem pedir comida pelo telefone. Vão ver o sol que ficou guardado no rosto um do outro, e vão rir mesmo sabendo que isso não tem graça nenhuma. Vão comer e ter sono. Se abraçar e dormir

Mas você abre os olhos, e alguém não virá. Talvez se você tivesse ficado de olhos fechados. Com eles abertos alguém nunca vem. Você está sozinho, já faz tempo que está sozinho, e amanhã vai ser um dia como outro qualquer.

A culpa é dos discos. Eles são pares, e não te dão desculpa para chorar.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Conversa ao telefone.

- Alô?
- Meu filho - voz grave e profunda do outro lado da linha - sou eu!
- Pai? O senhor está rouco?
- Não, sou eu, O Todo Poderoso!
- Erm... Hum... Bom dia, senhor Poderoso (achei que devia trata-lo pelo sobrenome)
- Preciso lhe fazer uma pergunta, meu filho.
- Engraçado, pensei que se o senhor existisse teria todas as respostas.
- Deixa de ser engraçadinho.
- Ok, ok... Pode perguntar.
- O que é que tem na Obra hoje?
- Ih, nem sei... Da uma olhada no site.
- Hum... E qual o endereço?
- Anota aí: é dabliu dabliu dabliu ponto aobra ponto com.
- Certo, certo...
- Mas e aí, como vão as coisas?
- Tudo certo.
- Então ta. Um abraço.
- Bernardo?
- Sim?
- Pra todos os efeitos, caso te perguntem, eu não existo, ok?
- Bom, se você insiste.
- Boa noite.
- Boa noite.

E essa foi uma das dez ligações de longa distância mais bizarras que eu já recebi.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Aleluia

Existem ainda algumas pessoas largadas no canto direito da sua cabeça, mas aos poucos elas também se apagam e vão para aquele lugar que se reserva às coisas em que não se quer pensar.

Aleluia.

As luzes deixam a noite com uma cor estranha, um amarelo pálido e opaco, e aqueles bichinhos que no verão se aglomeram em volta dos postes criam sombras que dançam incessantemente no chão molhado de chuva. Quando se está triste é bom ver que as coisas são tão molhadas quanto os olhos.

Aleluia.

Existe um ponto de onde não se pode voltar. Nunca. Não é um estado de espírito, é uma coisa quase física que obriga o ser humano a continuar tentando, e tanto já se perdeu quando se alcança esse ponto que não faz mais muito sentido parar agora. É o herói que entra no labirinto para salvar a donzela, e mesmo depois da certeza de estar completamente perdido sabe que não adianta voltar, e segue em frente ao encontro de um minotauro qualquer que irá devorá-lo. Não anda de cabeça erguida e peito estufado, segue olhando para baixo e com medo das sombras, pensando a todo instante que deixou para trás qualquer vestígio de esperança.

Aleluia.