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terça-feira, 31 de julho de 2007

Trabalho Mata

"O trabalho liberta"

Ainda não consegui decidir se odeio ou adoro trabalhar, mas com certeza não consigo ser indiferente. Minha precária administração do tempo, que frequentemente resulta fins de semana e e noites varados pra cumprir prazos, não me permite ter um relacionamento normal com o trabalho e assim ele se torna onipresente.

Duas coisas são deliciosas quando se trata de trabalhar: ver terminada alguma coisa da qual você se orgulha e ter reconhecimento pelo que se fez (o que obviamente inclui o dinheiro). O resto, especialmente a rotina, é um pé no saco.

Mas particularmente acho que a definição atual de trabalho é muito restrita. Quem faz alguma atividade sem patrão e/ou remuneração geralmente se define como "artista" - é sempre bom usar o charme da pobreza boêmia - ou "ativista" - melhor nem comentar. Pelo menos pra mim, esse esquema de fazer trampinho ou organizar protesto é uma forma de trabalho sim - entre outras atividades possíveis dentro das duas categorias descritas acima, só que talvez menos destrutivo e alienante que a maneira "tradicional" de trabalhar. Claro, se você for um comuna da UNE do Partidão ou similares, vai estar tão alienado quanto uma criancinha que monta tênis Nike na Indonésia.

Na verdade o engraçado é que o capitalismo se alia com a democracia e produz uma idéia de que é totalmente laico em sua ética e valores, pelo menos é o que os teóricos da economia neoclássica adoram defender, apesar do Weber. Mas não é. Ganhar o pão com o suor do teu rosto é a máxima cristã. Claro, talvez esse versículo só quisesse dizer que nada vem sem esforço, mas a noção reproduzida por ele foi outra: o trabalho dignifica o homem, frase construída pra justificar a servidão medieval que até hoje é entendida como verdade absoluta. Mas hoje ao invés de apenas comer o pão, devemos tomar o vinho californiano junto e comprar o carro alemão - e se forem frutos do seu trabalho eles provam que você é digno de verdade. De resto, você é um fracassado.

O trabalho liberta é o que estava escrito nos portões de Auschwitz. Talvez naquela época os cartões de crédito, compras online e horas extra e metas ainda não tivessem sido inventados. Num mundo onde, apesar do conforto absurdo, se trabalha cada vez mais pra consumir e o lixo é produzido em toneladas por pessoa/ano talvez o digno seja não trabalhar - especialmente quando já foram diagnosticadas mortes por excesso de trabalho. Por enquanto vamos seguindo, sempre rumo ao sucesso, vivendo dentro de uma propaganda de banco. Os juros só vão ser cobrados daqui a muitos anos.

Killer Cars

Outro dia conheci um cara que tentou se suicidar batendo a moto, mas não quebrou nenhum osso com isso. Um tempo depois, quando já não queria morrer, sofreu um acidente na ponte Rio-Niterói e ficou três meses em coma. Ele disse que a última coisa que lembra é se levantar do asfalto e ver um farol de carro vindo na direção dele. Após anos, a noiva dele (que trabalhava no interior e pegava a estrada toda semana) bateu o carro e morreu. Ele disse que essa foi a pior coisa que já aconteceu na vida dele.

Esse cara não é a única pessoa que eu conheço que perdeu alguém em acidente de carro, e acho que todo mundo já teve um amigo ou conhecido morreu assim. Quem lembra do único filho da professora da UFMG que morreu indo de ônibus pra Venezuela? Era condução do D.C.E.

Em um dos finais-de-semana dessas férias de julho morreram 94 pessoas de acidente de carro só em Minas Gerais... Se somarmos o Brasil inteiro é fácil ver que isto ultrapassa de longe as 199 que morreram no acidente do avião da TAM. Só que "O Brasil" não ficou emocionado com essas pessoas que morreram de carro, nem indignado com um possível "apagão rodoviário" (urgh!). Por que será?

Acho que acidentes de avião soam muito horríveis porque morre muita gente de uma vez - e mais que isso, porque há uma sensação de que não se pode fazer nada. Há a impressão de que acidentes de carro poderíam ser evitados pela vítima, já que se devem muitas vezes a imprudências, cansaso etc. Avião não: quem morreu, fora o piloto, e normalmente ele incluído, não pôde nunca fazer nada, a não ser sentar e morrer carbonizado na posição de impacto.

Mas muita gente morre de acidente de carro no Brasil, muita gente mesmo, e não adianta falar que são só as condições das estradas, os caminhoneiros que dirigem com sono, ou o uso do álcool antes de dirigir. Não vem que não tem, automóveis matam e matam muito. Quando não é por acidente, é pela contribuição que eles fazem ao efeito estufa graças ao CO2 que lançam na atmosfera, ou graças ao stress que causam nas grandes cidades esses engarrafamentos longos e insuportáveis que ter deixam 15 minutos preso entre a quadra e outra.

O que me assusta é que nunca vi ninguém simplesmente sugerir que se abdique dos carros, em prol de outros meios de transporte. Esta não é uma questão que parece incomodar as pessoas. E olha que vivemos num mundo onde a vida longa e saudável é uma obrigação: ninguém pode mais fumar, comer alimentos gordurosos, sujar a cidade, emitir poluentes, entrar em brigas, usar drogas pesadas nem fazer nada que possa diminuir a extensão de nossa vida ou da vida do planeta.

O carro é o meio de transporte mais burro que já inventaram: ele polui, é perigoso, caro pra caralho (pro estado e pro dono) e o pior de tudo é que ele depende de um idiota atrás do volante que faz o que quiser com ele. Alguém já imaginou uma cidade sem carros, só metrôs, alguns trens de superfícies, funiculares (em cidades com terreno acidentado), biciletas e segways para distancias curtas e ocasionalmente uns ônibus? Imagina como seria mais bonita, limpa, calma. Óbvio que isto necessitaria de um investimento inicial gigante, mas a longo prazo estradas são mais caras, pois exigem mais manutenção, reparos, além dos gastos com seguros etc. Que deixassem os carros só para situaões offroad, onde não há trilhos. Nossa vida seria completamente diferente, tanto que mal é possível fazer uma imagem mental. Mas desconfio que seria melhor. Não ia ter crise do petróleo, por exemplo. Provavelmente não ia ter intervenção americana no Oriente Médio. Não ia ter de derramamentos de óleo, explosão de plataformas petrolíferas e similares. Não ia ter a musiquinha irritante da propaganda da PetroBras. Ou ia ter menos, pois o petróleo teria menor procura e, logo, menor preço.

Claro que isto nunca vai acontecer. Claro que é uma merda morar em BH sem carro, não dá pra ir no Santa Tereza a não ser de taxi; Baile da Saudade então fica fora de cogitação pra quem mora na zona centro-sul. Aqui no Rio nem tanto, o metrô funciona muito bem e tem muito ônibus de madrugada pra onde eu moro (Lapa-Tijuca deve ter uns 5 diferentes, sempre cheios até 3 da manhã), os taxis são mais baratos também. De vez em quando faz falta um carro pra ir pra uma praia mais legal, tipo Itacoatiara ou Recreio, que exigem mais de 2 horas de ônibus. Pegar estrada com os amigos também é muito legal as vezes. Mas eu abriria mão fácil dessas coisas em prol de um mundo sem carros. Fácil.

A não ser que fossem carros voadores. Aliás, o ano 2000 está chegando: voltaram a produzir o DeLorean, só que ainda é o do De Volta Para o Futuro I, o que não voa. Damn.